terça-feira, maio 13

Petit

Abro as portas e janelas ao redor.
Só quando vejo o sol lá fora, percebo a pequenez dessas paredes sob a imensidão azul celeste. Recobro consciência da minha total inconsciência.
Saio de casa. Atravesso essa cidade de concreto e suas pessoas cujos corações são cimento. Encosto-me em uma árvore.
Vejo a sombra das folhas entremeada por raios de sol que lambem meu caderno. Ouço o vento, os grilos, crianças brincando ao longe. Ouço passos, mas não vejo ninguém.
Não há ninguém. Nem eu.
Em minha busca por mim mesma, perdi-me do resto do mundo.
Ouço passos, mas não são meus. Viro-me e descubro, a me observar dos arbustos, um gato.
Sentado, sereno, penetra seus olhos verdes amarelados nos meus.
Murmuro um chamado. Não pude resistir. Não tentei resistir.
Ele caminha em minha direção. É pequeno, mas seu andar exala selvageria. Estou imóvel. O controle da situação é do gato. Ele a é.
Enrosca-se em minha cintura e meus braços. Acaricio seu pêlo, uma nuvem em tons preto, creme, branco e marrom. Ele deita em meu colo, prende as unhas em meu corpo e encosta a cabecinha. Dorme. Durmo.
Não sei quanto tempo passamos assim, nunca saberei.
Meu amor era tudo o que tinha a oferecer, e só.
Não me movi, sequer respirei. Ele respirava por mim.
Acordou, levantou-se para então sentar-se a uns passos à minha frente. Encarou-me longamente. Transmitia a mim pensamentos e segredos seus.
Tive nessa conversa muda uma das certezas de minha vida, pulsando com a paixão invisível aos céticos de coração.
Depois disso, correu. Acompanhei seu vulto até que desaparecesse novamente nos arbustos. Sentei-me de costas, numa pedra.
Então soube. Eu estava lá; naquela pedra existia.
Não olhei pra trás.
O gato sou eu.


Segunda-feira, 26 de Fevereiro de 2007

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