Este texto não é arte.
A vida é muito crua e real pra ser arte. Não há tempo para sorrisos secretos, viagens inesperadas, suspiros e declarações de amor. Não há acordos de paz, reforma agrária, igualdade social.
Mas o que acontece é interessante, admito. O mundo todo gira feroz e implacável, enquanto a vida em si parece um trailer em slowmotion.
Vejo-me sozinha na cama, digerindo a sua traição. E lá deitada percebo: não estou surpresa, ou sequer mesmo brava. Seu olhar sempre esteve, lá no fundo, distante. Todo riso, toda conversa era superficial. Nossas almas estiveram, senão sempre, mas durante a maior parte do tempo, é fato, afastadas.
Não estou triste, mas percebo: uma lágrima quente desce lenta pelo meu rosto.
Decepção, é isso.
Porque o fim era certo, e eu sabia. O tempo todo. Mas quis sempre não saber...
Odiei você e a sua memória. Por provar, como se botasse um letreiro de neon na minha testa escrito 'você estava certa'.
E então, mais nada. Só esse fim sem sal dessa relação sem açúcar.
Houve um crime, mas não somos culpados.
Pois deveria ser crime curtir sem gostar, não acha?
Todo esse tempo investido em esconder, disfarçar, flutuar. Sem aprofundar, investigar, enroscar.
E que culpa temos? Não se manda no coração, é o que dizem.
Mas a decepção persiste, como uma velha amarga morando dentro de nós, a cuspir indiferença e contaminar a mente com ilusões - tudo o que poderia ter sido e não foi.
Lá se vai mais uma chance, fracassada.
Sigamos em frente, acumulando experiências e arranhões. Há muito por rir e chorar, muito mais amantes por amar.
Continuemos amigos. Assim, embora envoltos por essa formal e plástica educação, ainda existiremos em nossas vidas. Como uma velha cicatriz, que às vezes coça.
E então, por trás desse sorriso falso, eu guardarei esse desejo de gritar na sua cara... "por que você não me conquista, porra?"
Esse desejo engolido de me apaixonar, que você nunca realizou.
- Sabia que eu te adoro?
Essas palavras flutuam sozinhas não se sabe aonde. E eram mentira, sabia?
Men-ti-ra.
O Carlos que eu adorava não faz questão de existir, embora eu saiba que ele está lá, em algum lugar.
Então, esquece.
Por isso esse texto é vida, e não arte.
Talvez a vida devesse imitar a arte. Assim, ao menos uma vez, eu poderia pintar o quadro mais lindo e me sentiria livre pra nele viver.
Quanta ingenuidade, não?
Cada um escreve a própria vida.
Já o coração... este é uma tela em branco, esperando tal talentoso pintor.
Sim. Você respingou minha tela, só. E eu, deixei um borrão que seja na sua?
Ah, cadê meu artista? Vem viver comigo...
Sábado, 20 de Janeiro de 2007
Nenhum comentário:
Postar um comentário