Fotografia em preto e branco. Camisa branca, calça preta, chapéu. Pela viela ainda úmida da garoa, ele caminhava. Pisava entretido nas pequenas poças d'água sobre o paralelepípedo cinzento. A luz dos postes refletia em cada gota, como se aquele chão de concreto fosse surreal espelho estrelado do céu acima. A brisa preguiçosa e fresca criava toda uma atmosfera ébria e sensual; se podia mesmo sentir a presença de alguma canção estranhamente familiar, embora não se pudesse ouvi-la.
Sentou-se na calçada, puxou um cigarro e acendeu-o. O ligeiro e frágil clarão do isqueiro lambeu seu rosto; faiscaram seus olhos negros. Suspirou fundo e debruçou-se para trás, deixando deslizar o cabelo incorrigível.
Pôs-se então a fitar a paisagem. Sua paisagem. Gostava das casinhas antigas inseridas ali, no âmago da cidade implacável. O movimento o atraía, a energia incessante. As pessoas. E, no entanto, sentia sua viela paralela a tudo. Sua pequena fenda no Tempo, alheia ao alheio e delicioso antro de mistério.
O mundo talvez fosse para ele irresistível canto de sereia. A Vida, o Divino, a paixão dos poetas ou um inseto rastejando no chão. Transparecia em seu rosto, forte e delicado, uma expressão sonhadora. Talvez não quisesse, de fato, compreender. Ou ser compreendido. O desejo por conhecimento, experiência, pulsava em suas veias.
Deteve o olhar numa daquelas poças. Pode ser que admirasse mesmo o tal reflexo das luzes na água, e só. O brilho quente dos postes, as estrelas distantes, flamejando aos milhões infinito adentro, sobre sua cabeça e de incontáveis seres mais. Ou talvez, o desconhecido de seu próprio olhar. Haveria para ele alguma estrela lá em especial?
Fotografia em nuances azuis e douradas. Assim imaginava eu, com a absoluta certeza que se tem das coisas incertas, um vislumbre da alma dele. Um quê melancólico, como um véu de doce sabedoria azul, encobrindo cicatrizes antigas, coexistindo com os traços de alegria, beleza e honra dourados.
Debruçada na janela de uma das casinhas eu o podia observar, como numa tentativa de exprimir depois parar o papel a existência dele em meu coração. Mas não se pode mesmo explicar o inexplicável... e então, nessas noites de luar em que não há Tempo, se vestir um sorriso e apurar os ouvidos, pode-se cantarolar aquele seu blues flutuando no ar.
Não importa mais contar os segundos que formam o Tudo e o Nada. Ele existe.
Sábado, 10 de Março de 2007
Nenhum comentário:
Postar um comentário