sexta-feira, maio 16

Fim

Lembrava-se muito bem da primeira vez em que lhe quiseram agredir de verdade. Tinha ainda nítidos seus olhos ofendidos, num esforço heróico de quem segura a tristeza nas lágrimas com a raiva flamejante do sangue.
- Puta!
O som rasgou o ar; ele falou como um vômito, e sentiu-se fraco e vazio depois de dizê-lo. Ela, pelo contrário, ouviu pacientemente e não conteve seu sorriso. Aflorava linda a última mulher da estação. Manteve a classe, não quis responder. Como uma puta não responderia, para não sujar sua dignidade. Levantou-se da mesa, deu-lhe um beijo intenso na boca. Ele chorou, em pedaços. Seus saltos passaram por cima de todos quando ela foi embora.


Um bêbado ainda no balcão do bar pensou duas ou três vezes em encher os pulmões e chamá-la gostosa. Mas teve medo do andar dela, e contentou-se em imaginar o que teria feito aquele pobre infeliz para merecer a vingança daquela diva.
- Vai embora, vai embora...
Ele repetia como se pedisse, e ela passivamente respeitasse. Agarrava-se numa última ilusão para juntar, pelo menos, a coragem mínima de voltar para casa.

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