Levantou-se da sarjeta. As roupas em trapos encharcavam sob o peso da chuva que derramava-se dos céus cinzentos acima da cidade cinzenta.
Os olhos, cinzas. O rosto regado, salgado e doce, d'águas vindas daquelas fontes cinzentas.
Os pés descalços tateavam desconfiados aquele concreto tão outrora familiar. Sentiam-no áspero, como se insultasse todos os poros de seu corpo.
Franziu as sombrancelhas, moldura de um olhar inquieto, voltado para dentro da própria mente. Vasculhava alguma memória que denunciasse o sentido de estar ali.
Não encontrou nada. Suas próprias escolhas o trouxeram até ali, fato. Mas ainda assim, não encontrava o exato momento em que sua vida estalou, revirou, parou. Perdeu a razão como a conhecia, para então se transformar.
Arrancou os trapos, por fim. A expressão agora era forte, transbordando idealismo em todas as direções. Pisou novamente o concreto, dessa vez como que para amassá-lo definitivamente.
Seus passos, determinados, o levariam a algum lugar, indeterminado. Apenas diferente dali.
Nu, voltou-se à platéia. Gritou a essência de sua alma, procurando preencher cada espaço ao seu redor. E então sorriu.
Ventou no cenário, fazendo o cinzento levantar-se e sacudir, revelando brasas ardentes. E então, um incêndio.
O fogo sorria na boca do homem.
E os olhos... ah, são castanhos.
A garota na platéia chorou. Seu coração ardia também, despertado.
Quinta-feira, 1 de Fevereiro de 2007
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