Sexta-feira, a noite se deixava cair. Trazia descanso aos corpos da cidade, abatidos pela rotina. Começava mais um happy-hour em São Paulo. E enfiados assim nesse contexto, numa fresca mesinha de madeira sobre a calçada, duas pessoas estavam prestes a rasgar os conceitos e normas, normais ou nem tanto. Ela tinha um chá gelado, sabor limão. Ele, um capuccino.
Conversavam, como o costume da amizade antiga pedia. A família, o emprego, como ia aquele gato rabugento do vizinho, as novidades. Ele não se podia mais conter:
- E como vai o moço?
Ela surpreendeu-se com a pergunta, pareceu se iluminar. Tomou um gole de chá; devolveria maduro.
- Hahaha jura, só pelo cigarro?...
Alguém na mesa ao lado fumava. O cheiro, ele sabia, a fazia lembrar de um amor não-realizado. Ela sonhava.
- Sim. Esse cheiro sempre te afeta tanto...
- Ninguém entende, eu desisti de explicar.
- Explica-me. Quem sabe entendo-te.
Ela suspirou, considerando. Por um momento, ele teve medo. E se ela desistisse, calasse? Ele fumava aquele cigarro já há tempos, tanto tempo...
- Mas ele é meu vício, minha insanidade... puta que pariu.
O desabafo caiu como água fria na insegurança dele. Despertou. Ele arregalava os olhos, como se assim pudesse mesmo a absorver melhor.
- É totalmente mais forte que eu...
Ela tentava explicar. Subjetiva. Sentimento, puro. Mas ele entendia, subjetivo:
- Aquilo que você sempre idealizou, só que vivo e humano.
- É!
Uma pausa. Os corações, perceberam, aceleravam. As mãos estavam tensas, apertando a xícara de café. Ela prendeu o cabelo.
- Cara... é inacreditável, às vezes. É uma coisa de essência, sei lá.
Ela estava tão imersa nas sensações que dizer tudo aquilo trazia, que agora já não dizia, apenas sentia. Ele:
- Coisa que puxa. Que arrasta prum buraco que quando você vê... não é um buraco, é o céu.
Intenso, também ele agora já não se preocupava em maquiar suas palavras. Abria a boca, e dizia calor, dizia amores.
- É... puta merda, escreve isso.
Ela parecia apaixonada, agora pela frase. De imediato pensou já em escrever, como fazia com ele, há muito tempo. Como faz tempo! E ela nunca mais escreveu... continuou sonhando:
- É magnético... aquelas coisinhas de estar feliz, e querer dividir... estar num lugar bonito, e querer a pessoa lá... estar triste, e a pessoa te consolar, sem nem precisar dizer nada!
- Estar lá comendo uva e querer uma mão na cintura. Um sorriso. Ver pôr-do-sol...
- E sentir um aperto no coração por não tê-lo ao seu lado. É... sentir a lua mais sozinha.
Olharam-se, cúmplices. Diziam verdades explícitas aos enamorados, sim. E tantos segredos deles dois mais... sorriam nostalgia.
- Sabe, por mais que seja incrivelmente doloroso não poder explicar isso pra ele ainda, e nem ter...
- Deitar na cama e sentir tudo mais intensificado, o cheiro, a textura dos lençóis...
- ...ainda assim eu agradeço só por poder sentir!
- É estar feliz estando triste, né? Ver e não ter!
- E a cama muito maior...
- Sentir uma falta absoluta, mas ainda assim, estar feliz.
Atropelavam-se. As palavras corriam da boca carregadas de idéias e desejos pulsando enlouquecidos pelo coração, já em pura desritmia.
- Dá vontade de morrer um dia... e só de lembrar, ou pensar nele dizendo: 'deixa...' é vontade de viver.
- É... um estado de suspiro permanente...
- Você não tem noção de como eu te entendo.
- Ah! Isso me deixa feliz de verdade. Mesmo. Não haveria guerras no mundo se todos sentissem isso...
- Ele, pode crer que é, a sua sensação mais próxima ao nirvana que você, mortal não budista pode sentir...
Então não puderam mais. Não quiseram. Romperam com a noite que caía, com o café comportado em cima da mesa. O nirvana era ali, naquela mesinha, naquele beijo. Tão só e pra sempre, ali.
Sábado, 17 de Março de 2007
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