Parada em frente ao espelho encarando olhos silenciosos, sem piscar.
Tragando de leve o ar embebido em incenso, sem encher os pulmões.
As peças de roupa caem a seus pés, embolando-se lentamente, uma a uma - o frio vem acompanhar o corpo nu.
A porta fechada deixa o mundo inteiro do lado de lá, um universo inteiro aqui.
A pele macia vai ao chão - ela olha e não gosta do que vê.
Descama-se.
O cabelo solto cheirando a frutas mistura-se ao filete de sangue, descendo quente sobre o seio - vazamento no coração.
Escorrem máscaras, memórias, palavras e sentimentos, embolando-se no chão.
Sem piscar e parada, assistindo o reflexo no espelho dançar.
Pose de força manha por colo sorriso idéia lágrima vocação
Amiga filha escritora cidadã junkie criminosa
- todas sacerdotisas conjurando sacra contradição, exorcizando fantasmas a se desmanchar em suspiros rendidos.
E ela continua ali, sem piscar.
Livre acorrentada sem saber de que são feitos seus grilhões.
Às vezes fechar os olhos é só voltá-los para dentro, é descobrir nas visões uma forma de cegueira. Estúpida lucidez!
Ela deixou o corpo cair para trás, e de ponta cabeça viu a lua que rebrilha o sol, ouviu os gritos que ressoam o desejo e num pássaro em vôo sentiu sua prisão dissolvendo-se.
No espelho, uma imagem que não gostava do que refletia quebrou o vidro mesmo sabendo que não deveria e pisou para fora, mesmo cortando os pés.
Quanto ao entulho no chão, fez dele uma fogueira e deixou o frio arder.
Segunda-feira, 7 de Maio de 2007
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