sexta-feira, maio 16

Pupila

Estou completamente enrolada num cobertor, bem perto do chão - e bem longe do chão! A luz amarela esquenta as paredes e páginas do caderno, mas minha pele continua fria como a janela de alumínio um pouco acima.
A cortina de renda branca tem o vulto de um gato de costas imóvel e contemplativo. Aposto que ele pode ver através da janela. Vê o asfalto molhado, os prédios de pastilhas encardidas e os carros indiferentes. Curte o som metálico atropelando as gotículas e compreende as nuvens pesadas e cinzentas lá em cima. Faz trovejar com seu miado. Há quem pense que são criaturas melancólicas, mas não. Têm apenas a natureza pura e enigmática, como uma artimanha eterna e sábia a desafiar-nos incessantemente. Não é por desdém; eles possuem uma visão suprema do universo, sacam que as estrelas incandescentes perpetuam a vida independentemente de haver nuvens a encobri-las ou não. A cegueira do momento não existe. Toda lua é sempre cheia, sem se importar com as sombras que a Terra desenha.
E os apaixonados declamam suas loucuras a ela, e culpam-na por seus delírios, mas ela parece acompanhar somente o bêbado na sarjeta que não lhe dá atenção, ou beija os lençóis dos que atingem a paz verdadeira e espiritual em seus gemidos sensuais da carne.
O gato na janela assiste ao mundo impassível, e faz já algum tempo que não o ouço miar. Seus pêlos muito negros misturam-se ao cobertor e ao meu cabelo castanho.
Não quero fechar os olhos e fingir que esse mundo não está aqui. Em meu coração silencioso, anseio, embalo e amo o movimento. Abrir! a janela e saltar, correr na chuva com as veias abertas e absorver e filtrar a energia. Ah, eu abriria os braços e a boca voltada para os céus e beberia da sabedoria eterna! Lavar o corpo dos vícios mundanos e correr até a exaustão; isso é esperar pela alvorada, e merecer o milagre dos raios dourados lambendo a pele delicada como uma criança que pede à mãe o colo seguro e sacro. Como só uma criança pode entender a vida pulsante, sem buscar ser compreendida. Numa ciranda todos são iguais, ainda se lembra de encostar a cabeça no peito de alguém e ouvir a música da sua alma numa orquestra perfeita e falida desse maestro coração.
E pelas ruas esse compasso simples, conformado e sobrevivente contrasta e sustenta a ópera trágica composta pela humanidade. Eles não sabem, mas os astros ouvem. Ela é a surda, não ouve os convites da cauda de cometa.
Há vagas para todos, garantia de quem sabe encontrar.
Eu compreendo o sussuro que acalenta a mulher africana que enterra seus filhos, o operário, o poeta e o suicida. O multimilionário e o sangue do rei morto em batalha. Mas o gato é alheio na janela, correndo nos telhados, miando sob o luar e afiando garras na carne febril, cumpre sua fidelidade incondicional, predestinada e imprevisível à vida eterna. O espírito encontra suas asas na plenitude do respeito a cada noite e cada dia como uma flor diferente e de perfumes únicos, e poliniza-se deles com a dedicação dos amantes e das mães, e escreve nas praias com sorrisos "LIBERDADE", porque em algumas horas a maré cheia vai beber dela, e virar chuva, e lavar as almas e esses prédios de pastilhas...

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