Contou-se certo dia a história de uma garota normal, vinte dedos e unhas, uns milhões de cabelos e batatas da perna bonitas. Ela andava feito uma nuvem, esperava o vento chegar e então flutuava pra onde quer que ele fosse também. Nesse dia, certamente o mais errado das últimas vinte e quatro horas, não houve vento. Mas nem um desses bafinhos que chamam mormaço. E ela adquiriu então a aparência de uma nuvem de chuva, cinzenta e pesada. E assim foram ainda umas dezessete mil, quinhentas e vinte horas. Imaginem só a tempestade que estava por cair! Ela trovejava enrustida, relampejava forte, mas não chovia. A vida havia de ser uma artimanha serelepe e rápida, pote de alegria no fim do arco-íris, e a menina só conhecia o cinza. Esqueceu a conjugação do verbo flutuar; agora ela rolava desengonçadamente, trazendo à mente a lembrança de um floco gigantesco de poeira do deserto. E dessa maneira errada, ela chegou ao lugar certo. Naquele dia a história que se contava nos parques era a de uma nuvem feia que passou em frente a um espelho d'água e não se reconheceu; viu no fundo do lago um espectro de uma menina triste se afogando, e sentiu seu próprio coração que se inundava, até ele próprio transbordar. Esse foi o dia em que a nuvem virou mulher e chorou.
Ah, ela tinha uns olhos embriagantes...
Segunda-feira, 13 de Agosto de 2007
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