sexta-feira, maio 16

Canção de São Paulo

Naquela tarde eu rolava pela cama fria, abraçando almofadas e as atirando no chão, abrindo e fechando os armários e as janelas do quarto. Tomei um banho e fitei aquele cheiro deslizando de meu corpo, derretendo sob o sabonete e finalmente escapulindo ralo adentro. Quis me agachar e lá encostar o rosto, seguir com meus olhos o cheiro adorado pelos encanamentos, até agarrá-lo de novo, e eu o esfregaria na pele para então sentir mais uma vez o meu amante perfumado. Fiquei em pé, a água do chuveiro por meu cabelo encharcado lavava minhas memórias trazendo o conforto falso de quem boicota os desejos, que mergulhavam pelo ralo. Enrolei a toalha na cabeça e estirei os ossos nas almofadas banhadas pelo entardecer, assistindo o lento enrolar da luz, saindo do quarto e voltando pro Sol, acolchoando o céu para que a primeira estrela finalmente viesse, quente e branca, trazendo seu aviso doce de que a noite chegara.
Vesti meu vestido florido e saí pelas ruas, dobrando esquinas cafeterias carros a lojinha de abajures as notícias da banca de jornais e os postes de lâmpadas amarelas, procurando pela orla da praia. Sentia a areia grudando em meus pés descalços, você disse que dançaríamos a vida sempre descalços, mas ouvia o chamado do mar apenas como a criança que encosta a concha no ouvido, tão distante, tão saudosa! E só encontrava a cidade que não era a sua, só engolia a realidade que não era minha.
No banco de pedra perto da amoreira guardei nosso sonho, debaixo de meus sapatos e das flores que desgrudaram do vestido. Esperando por você ou até que amanhecesse, eu me perguntava se amoreira era a árvore que dava frutas de amor...


Quinta-feira, 19 de Julho de 2007

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