Um dia antes, pressentia já a aproximação da novidade, sob a forma de uma inquietação ranzinza por todo meu corpo. Meus pés puseram-se a arrastar-me de volta para casa, como num ritual molemente adestrado; a Rotina bebia de mim, e eu não parecia me importar se não restasse gota alguma - tinha esquecido-me de que era feita.
O farol vermelho fez-me parar ante o cruzamento. Aproveitei o recorte que a avenida fazia nos prédios e vi o Sol se pondo. Longe, meio encoberto devido à poluição. Mas brilhava zombeteiro, projetando luzes coloridas nas nuvens carregadas. Poderia chover suco de laranja.
O farol abriu e o caminho já traçado por alguém que não eu virou minhas costas para o entardecer. Senti o calor tocando de leve as costelas, ninando minhas memórias num falso consolo, como se a cintura não estivesse, de fato, vazia.
E o caminho me sabia, me traçava pequena naquele quadro pintado no céu. Nuvens de chuva cor-de-rosa, chuva ácida.
Na manhã seguinte, meu corpo doía. Resultado patético de lençóis enrolados numa noite longa perturbada por qualquer barulho, os mais imaginários. Não pude dormir, embebida em silêncio.
Sentei-me à beira da janela. Ver lá embaixo cabecinhas miúdas, zanzando apressadas rumo ao trabalho revirava meu estômago e matava o tempo, meu matador. E a copa da árvore junto àquela janela, quase invadindo a sala, acalentava-me. Libélulas sobrevoavam-na aos montes - era um dia quente, eu tinha frio.
Abri um livro. Quem sabe, longe dali num papel, houvesse algum vestígio de solução?
(Doces momentos os distraídos!) Mergulhada num daqueles contos, vejo uma descrição morna e fofa dum dito sentimento novo. Deitei minha cabeça nela. Injetei-me o tal spleen, londrino:
"Em noites assim, a nossa realidade interior se mistura à atmosfera que o fog torna ainda mais densa, apagando os contornos da vida. O silêncio ao redor de nós como que se materializa. Os movimentos se fazem em câmera lenta, como o dos peixes no mundo das águas. Somos ectoplasmas de nós mesmos, flutuando no ar, integrados à eternidade do nada."
Assim Fernando ensinou-me a matar a solidão de ser vida vazia num parágrafo.
Fiquei lá deitada e fui embora, traçar o caminho e beber da rotina, enrolar a noite nos meus lençóis.
Quarta-feira, 21 de Março de 2007
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