terça-feira, maio 20

Negro (ou Fru)

Todas as noites, eu ando pelas ruas pensando em encontrá-lo pelo caminho. O asfalto mal iluminado, as sombras das rabiolas de pipas enroscadas nos postes se movem ao toque da brisa fresca da madrugada, as folhas rolam pelo chão.
Qualquer noite eu escuto seu sussurro, bem longe, na minha nuca, nos meus calcanhares. Ssshh, não fala nada, vem cá. Do outro lado da rua, ele finge que não me ouve, eu finjo que não me importo. Sento num muro, e esqueço nele meu olhar. Vem, seus passos leves, seu ar indiferente e o luar muito prateado sobre essa cor preta que só ele tem. O tempo não passa, e eu espero você chegar. O tempo passa, mas eu espero você chegar!
Vem, e se enrosca nas minhas pernas, crava as unhas nas minhas pernas e se contorce pelo chão de pedra fria. Fica, que eu te esquento no meu abraço, que eu te iludo com meus laços nessa noite de lua fria.
Ah, e ele alisa minhas costas nuas, e eu sinto seu tato quente, e macio, e empoeirado... traz a poeira das ruas nesse seu coração vira-latas, amor!
E o tempo só é nosso debaixo dessa lua linda, e em poucas horas fazemos a eternidade, tão só em cada noite minha! E em cada encontro eu vou te amar, silenciosa! E em cada despedida eu vou fugir dessa falta sua, essa saudade calma de quem anda por todas as ruas, e procura nas sombras o mesmo sussurro safado e doce.
Da minha janela eu espio a vida passando, e sonho acordada com um gemido seu na minha porta, meu gato, que só pros seus olhos sorrateiros eu sei sorrir, e só pra sua mordida eu sei chorar.
E faz essas luas quentes, que por você eu sei derreter...

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