sexta-feira, abril 18

Tijolo de sonho, heroína de barro

E ela estava ali. A criatura. O rascunho de mulher. Sua existência não ia muito além de definições mal definidas, ultimamente. Não, não ultimamente. Desde sempre. Não tinha memórias, mesmo vagas, de um momento sequer em que tomou consciência de si própria e sentiu a plenitude de sua vida. Lembrava-se de suas heroínas... mulheres fortes, tão inteligentes quanto bonitas. E todo o seu corpo e alma transpiravam energia e liberdade, independência. Cada poro sorria para o universo faíscas de sagacidade incontrolável, desafiando o próprio vento em busca de aventura. O mundo não tinha fronteiras, e era simplesmente pequeno quando comparado com o desejo dessas heroínas de viverem.
Mas ela estava ali.
Em seus pensamentos era mãe de todas essas mulheres e meninas, irmã.
Mas era mais que isso. Sangue. Pulsava em suas veias a mesma essência sacra de cada uma das personagens.
E, ainda assim, tudo o que ela fazia era estar ali.
Como um imenso poço de potencial abandonado, mergulhado em melancolia e desprezo. Ingratidão. Pois estando ali, ela preguiçosamente abdicava de seus sonhos e dons. Afinal, sua existência consistia num molenga rascunho mal feito, repleto de idéias fantásticas que nunca saíam do plano da imaginação.
Seu destino também, existia. Fora por ela mesma traçado.
Mas não podia esperar. A cada segundo desperdiçado, ele tornava-se mais distante.
Ela era a criatura molenga parada diante de uma deslumbrante estrada secreta, toda ladrilhada por cores e sons e luzes, e frágil. O tempo a comia, como uma criança devora um algodão doce. E a estrada desanuviava sob os pés da criatura.
Estava a criatura algemada? Não.
Como poucas, sentia a mágica da vida transbordando música por todos os lados.
Mas não se mexia. Criara sua própria prisão interna, era cativa de seu próprio castelo de sonhos.
Derrubou então o primeiro tijolo, e uma frestinha desconfiada de sol entrou, iluminando seu pé esquerdo.
Viu a pele dourada e chorou. Os olhos castanhos de pedra absorveram a própria lágrima, de tão sedentos de emoção.
Não havia no castelo dragão algum, e nenhum príncipe iria salvá-la. Não a criatura.
Decidiu que não precisava do socorro de ninguém.
Seria sua própria heroína. Escreveria seu próprio livro, em páginas de pele, em tinta de sangue.
Doía, mas começou a derrubar o castelo todo.
Pisaria sua própria estrada, afinal.

Antes que fosse tarde demais.


A criatura era sua heroína, uma mulher.
Um enigma a ser decifrado e, acima de tudo, a decifrar-se.

Descomplica, desamarra, desarma... vive.


Sexta-feira, 12 de Janeiro de 2007

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