E você não sabe, nem de longe, quão perto mora o perigo.
É tão fácil, joe. Como dar doce a uma criança. Literalmente, talvez. Você pode pensar, sim, somos todos crianças. Mas não sei se posso concordar contigo, não.
Num segundo, você nunca vai saber ao certo qual, vai olhar pro seu relógio barato e não vai reconhecer as horas.
Assim, há um segundo, você jurava, eram 7 horas da noite. Ainda havia sol, oras. Horário de verão. E então, você pisca, abre os olhos e aqueles ponteiros estúpidos te dizem: 3 da manhã.
Todo aquele tempo... sumiu.
Você abre os olhos, joe, mas a visão é embaçada. Percebe, como um fragmento de sonho, que está deitado num colchão. Acima, os armários parecem erguer-se ao infinito, rodando.
Não reconhece o lugar, nem a memória de como foi parar ali. Algum idiota acende a luz, seu cérebro parece querer reproduzir o big-bang - heh, aposto que nenhuma via láctea iria se formar daí.
Você dorme. Seu corpo todo dorme. O corpo, só o corpo.
A mente viaja feroz, cuspindo do desconhecido flashes ao consciente. Não, não. Ilusão? Você se lembra de estar conversando. Quer dizer, alguém falava, e você respondia. Balbuciava os primeiros pensamentos que lhe surgiam, arrependendo-se amargamente toda vez que abria a boca. Por que eu disse isso, meu Deus?!
Acorda, e conclui que preferia não ter se recordado de nada daquilo.
Não se reconhece. O corpo formiga, você pega uma torrada e não a sente. Morde, e não a sente. Poderia se estatelar no chão, a dor inexiste.
Você inexiste. Vai ao espelho, e o que vê não é você. Um borrão colorido e disforme de cabelos emaranhados e olhos semi-cerrados. Joga água no rosto, mas, porra, que água?!
Lembra de tudo que havia antes, e de todas as horas que passou lucidamente sofrendo, remoendo seus problemas. Agora enxerga a pequenez de tudo, a fragilidade da vida. O que é desperdício, afinal?
Aquele viver de outrora, ou isto?
Um mergulhar profundo na psicodelia, e você se sente num universo paralelo. Por que paralelo, joe? Quem disse que esse universo não é a verdade real?
E, acima de tudo, por que essa insistência em saber da verdade?
Há o tempo de rir, chorar, comer, dormir, peidar, amar, odiar, vencer, perder.
Não há nada como o agora.
E então, diga-me... que vai fazer com aquelas horas que sumiram?
O perigo é você, joe.
Sábado, 27 de Janeiro de 2007
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