quarta-feira, abril 15

Cafeína

Já passava das dez quando perguntei as horas. Desapercebi o tempo passar. As manhãs não parecem fazer tanta diferença nessa cidade, mesmo assim. Acorde às oito, acorde ao meio dia, são tantas nuvens cinzentas que mal se pode ver o sol laranja logo cedo ou amarelar ao longo do dia.
Tardei no sofá, aquele mais molenga, que fica ao pé da janela. Entre idas e vindas e tentativas perigosas de cochilos, consegui devorar um livro. Do começo ao fim, do jeito que é bom e há muito não conseguia mais fazer.
Caíram garoas e finalmente caiu a noite. Assisti vagarosamente as pessoas voltarem do trabalho às suas casas e começarem a sossegar. Banho, jantar, sala de estar - enquanto meu corpo ia finalmente se livrando dos últimos resquícios de preguiça. As melhores intenções voltando à mente, a boa e velha insanidade e sensação de viver pra sempre.
Já passava das onze quando voltei pra casa e fiz meu café. A pequena garrafa térmica, vermelha e metálica, foi provavelmente um dos melhores presentes de aniversário que ganhei.
Uma pessoa só erra em presentes porque pensa excessiva e inconscientemente em dar aos outros algo que vá moldá-los a como gostaria que fossem. Quer dizer, é mais fácil dar roupas que livros. É mais fácil agradar ao corpo do que à mente.

Minha dose de café, meus livros e minha tela em branco. Pensei ainda em reclamar das milhões de coisas que tinha a fazer, mas peguei-me antes sorrindo. Está tudo como deveria, afinal.

Rodeio-me de tudo quanto amo e então vem a vida, como que alagando meu mundo. Eu observo pacientemente enquanto o fluxo ocupa todo o espaço e, gelado, toca-me os pés. Espero que suba por minhas pernas, abrace-me a cintura, chegue ao meu pescoço e me cubra a cabeça. Prendo a respiração e o sangue começa a correr nervoso por meu corpo. Continuo esperando, até que quase todo meu mundo esteja inundado. Então reúno tudo o que há de força essencial em mim e escancaro a porta. A vida explode. Continua seu curso violentamente, para frente, para fora, e eu deixo a grande onda me levar - a vertigem, o frio na barriga e a delícia de estar livre de novo.

E todos ao meu redor observam, toda vez, na aflição de que eu vá me afogar. Mas a repressão de seus cuidados me é muito pior! A incompreensão do deleite que tenho em seguir minhas próprias regras angustia-me. E percebo como deve ser difícil fazer parte da vida de uma pessoa como eu.

Dizem que é difícil viver, mas é mais difícil deixar viver.
Eu deixo. Ah, eu deixo! E cada vez mais luto por mim. Mas acredito, ainda que pareça ingênua, que ainda ficará comigo quem compreender. Doloroso será deixar partir com o fluxo aqueles que amei, mas não souberam amar...

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