ELA ESTAVA AO PÉ DA CAMA com uma expressão que eu queria achar idiota. Tinhas as costas arqueadas e a perna esquerda lhe servia de apoio ao rosto. Os dedos muito compridos e finos se entrelaçavam e ela balançava lentamente a outra perna. Pra frente, pra trás, num ritmo débil que não levaria a lugar algum. E o rosto impassível. Os mesmos olhos vidrados e a boca linda, tão idiota. Vestia apenas uma calcinha preta.
Não é que ela falasse sem parar ou não pensasse, entende? Ela simplesmente fazia um dos dois por tempo demais.
NÃO QUE EU FIZESSE QUESTÃO de disciplina. Não fazia. Pra mim a vida era seguir as necessidades fisiológicas. Dormir, comer, mijar e transar quando o corpo precisasse. De resto, bastava atender os desejos da mente. Daí o colchão d'água, o brigadeiro, o banheiro e o chicote. Sabe?
SIMPLES DE CORAÇÃO eram palavras que não existiam mais. Tudo em nós foi, com o tempo, se tornando enigmas, espirais e muito mais corpo que coração. Eu gostava; nós conversávamos por horas, até que as bocas ficassem muito secas. E eu gostava ainda mais de beijá-la daquele jeito, numa teimosia depois da exaustão.
ERA BOM DORMIR AO LADO DELE. Só dormir, não me importava que loucura estivesse acontecendo lá fora.
NUNCA SOUBE SEU NOME DE VERDADE. Mas ela me ensinou a chamá-la de Stella. Eu passava muito mais tempo com minha guitarra que com ela. Quer dizer, ela estava lá. Linda, no colchão. Acho que ter uma mulher como ela ali, nua, e poder ignorá-la era uma inspiração muito maior, MUITO MAIOR, do que eu conseguia...
EU TIRAVA A ROUPA, mesmo. Sabia que era bonita. Talvez o objeto de decoração mais bonito de toda aquela espelunca que era o apartamento. E eu amava profundamente cada verso que escrevi nas paredes.
AQUELES POEMAS psicóticos dela. Louca nas minhas paredes, louca na minha cabeça, louca, louca e agora não queria falar comigo.
PORRA, EU NÃO IA FALAR. Falar o quê?!
Ele chegou até ela. Ele em pé, ela sentada. Empurrou-a com força na cama e se assustou. Não queria machucar, não! E ela foi rápida. Arranhou o braço dele pra se segurar, e ele sangrou. O lençol, meio encardido, agora tinha gotas de sangue. Ele se arrependeu. Ver aquela criatura tão frágil demonstrar tamanha força vital eliminou qualquer rastro de remorso que ele sentia. Ela se pôs de pé no colchão e acertou-lhe um tapa terrivelmente ardido no rosto. Ele quis segurá-la, mas ela o chutou no estômago e, no que ele se desequilibrava pra trás, puxou-a pelo braço. Caíram os dois, ela em cima dele, e ele agarrou-a com força pelos cabelos. Sua cabeça inclinava pra trás e ela urrava como um animal selvagem prestes a ser preso. Seu corpo nu arfava. Ela deixou-se ir pra trás, jogando suas longas pernas pra frente. Alcançou o rosto dele e pisou com força. Ele a soltou, ela correu. Foi até a parede e atirou contra ele o abajur azul. Ele gostava tanto! Pisou os cacos de vidro e sangrou os pés no abajur, porque gostava dele demais. Ele quis chorar e ela riu. Prendeu-a contra a parede. "Severin, severin", dizia a parede. "Speak so slightly". Ela deixou-se erguer do chão e entrelaçou suas pernas nele, que soltou as mãos dela para agarrar violentamente suas costelas. Ela usou as mãos livres pra alisar o rosto dele. Quanto mais ira via em seus olhos, mais delicado era o seu toque. Ele mostrava sinais de calma. A respiração, mais lenta. Então ela cuspiu em seu rosto. Ele a deixa cair no chão e esmurra a parede. Grita, grita até as lágrimas. Ela espera, no chão, até que ele silencie. Então engatinha até ele e o beija.
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