sábado, novembro 29

Seres

É inevitável o momento em que uma criatura precisa admitir alguns fatos sobre si mesma. Quanto a mim, vejo no espelho o reflexo de quem tem intrínseco em suas entranhas o talento para as histórias de horror. Elas existem em minha mente, quando durmo, quando ponho os pés para fora da rua. Acontecem ao meu redor com todas as suas redes, sons e sacanagens. Cada pássaro, pedregulho e papel de bala tem uma história de horror para contar, e eles gritam nos meus ouvidos todas elas.
Basta de poemas e canções de amor, eles dizem.
Não é que escrevê-las fará com que deixem de me atormentar, não é. A questão está mais para uma intoxicação alimentar: a lancinante dor no estômago, a ânsia! Contorce-se o corpo, dobra-se ao meio e repuxam-se os músculos do pescoço. Eis que como num parto surge o vômito, seu gosto quente e ácido. Fica a sensação vazia no corpo, mas a dor não se apaga. Expeliu-se o veneno e também a alegria do dia.

A minha caverna é freqüentada apenas por covardes. Quem deixou de acreditar, quem cansou-se das obrigações e tem medo do que poderia aprender. Não sou muito perturbada, é verdade. Ninguém ousa tirar-me de minha pedra, aqui reino soberana. Não como uma rainha poderosa e temida, mas como uma fera magoada de quem nunca se sabe o esperar. Não saio durante todo o tempo que vigio a caverna. O movimento corre livre lá fora.
Livre não; ignorante. Quem saltita por aquelas bandas desconhece os acontecimentos das outras dimensões, simultâneos ao tempo humano mas invisíveis à carne de seus olhos.
Também eu já fui assim. Não feliz. Não há felicidade na ignorância, há apenas a ilusão, pois não há medo sem as estórias de bruxas tal qual não há orgasmo sem sexo.
Tomei a pílula vermelha e, por enquanto, isso basta saber. Uma fresta aberta já é suficiente para que a realidade meta um chute nas portas da percepção e as escancare de vez.

Naquelas noites fazia muito calor e creio que isso também foi fator crucial. Mesmo um corpo nu em lençóis confortáveis padeceu a febre daquelas noites. Não pelo suor da pele, e sim pela loucura da mente.
É necessário que o leitor esteja ciente o tempo todo disso: nenhum dos acontecimentos dessas estórias aconteceu-me pela primeira vez na carne, não é disso que se trata. Mas perde-se a virgindade para o que é real nos termos de um louco.

Foi meu primeiro funeral. Toda morte é sempre o desamarrar de cadarços de alguma família. Lá se vai um filho, uma prima, o esposo. Mas triste é quando não há sobre o caixão as lágrimas de um amante... Estava ali apenas um guri! Pequeno e bonito, um futuro inteiro de corações-destruídos arruinado.
Estava parado a uns cinco metros de quem chorava e tinha os olhos fixos no próprio corpo inerte. Obviamente sabe o leitor que ninguém o via, assim como a mim. Não existíamos para a carne.
Ele era a tristeza do não. De todas as coisas não vividas, bem mais que as broncas que tomou pelas suas artimanhas, sorvetes e carrinhos e abraços. E, acima de tudo, ele era destino. Resignado e em paz. Foi-se enquanto era criança e não havia desaprendido de viver. Viveu vivendo, sem esperar que o fim chegasse antes que vivesse mais. Viveu sem saber como seria viver mais porque cada gesto seu, mesmo os menores, já eram plenos. Plenos pela ausência de perturbações filosóficas, de romances e obrigações financeiras.
Viveu com medo de lobo mau, sem aprender o que era inflação. Sem beijo de moça, mas com carinho de mãe.
Ele era a tristeza pelos que ficavam e não eram crianças como ele.
O conto de horror, meu caro leitor, é você e sua vida que não é criança.
Desculpe a redundância: a franqueza e especialmente a falta de charme. Tudo é proposital. Não quero o leitor que pense em entrelinhas e falsas intenções. Não. Esqueça por um minuto que seja todas essas convenções e boas maneiras!
Desculpe se lhes grito de volta essas palavras desagradáveis. Mas eu ouvi, ouvi até ficar viciada e esquecer como são os outros sons.

E agora tudo o que me resta é gritar-lhes de volta.
Abre os olhos.

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