sexta-feira, novembro 28

Relampejo

Não parava de pensar na vidinha burguesa. Meias limpas, macarrão aos domingos, carro pra tudo, dinheiro na poupança e no shopping de vez em quando. Até que havia algumas transgressões. O boicote a marcas famosas, talvez - na (amarga e até oportuna) verdade, como não há dinheiro pra comprá-las, vamos boicotar. Um boicote burguês tem um arzinho intelectual irresistível.
Pensava em todas os desejos pulsantes que batiam no peito, inflavam os pulmões. Heh, mais desejos frustrados são tudo o que essa cidade precisa pra foder com a qualidade do ar de uma vez!
Sábado, mãe, te vejo pro almoço de domingo!
E a forjada liberdade condicional entra em cena. O trem meio vazio e as crianças pobres, os estudantes voltando pra casa, trabalhadores cansados e nós, em liberdade condicional. Vestidos em nossas fantasias, maquiados, fedendo a perfume e a frustrações suadas. O calor de rever os amigos, aqueles que partilham de nossas dores e nosso tesão por algo mais, qualquer que seja ele.

andar beber entrar em qualquer lugar fumar beber dançar dançar beber dançar fumar dançar
sofá.

É no sofá que as coisas interessantes acontecem. Em qualquer minuto após as duas da manhã.
Quando as baterias arriarem, a roupa amassar, a maquiagem escorrer e os escudos cairem.
Compramos qualquer papo furado que sirva a um pobre coração despedaçado!
Qualquer conversa mole e mal-intencionada. Muito mal intencionada! Que não queira ser triste nem sedutoramente alegre. Não se atreva a sorrir na luz! Queira levar pra cama sem saber o nome, nem o que ele significa, nem de onde veio, nem pra onde vai... muito menos os sonhos!
Alivia a carne tresloucada. Beija! Fala a língua dos anjos!
Grita na nuca virilha calcanhar o idioma secreto que só lábios e pele ousam dizer!

faz esquecer o sonho de amor!
a distância o tempo e o nome dele
faz esquecer...!

Foi nesse sábado à noite. Era noite e ardia. Se deitou com estranhos e ha! cantou a língua dos anjos.
Foi ao céu e, achando que traía seus sonhos, descobriu que o chifre era dela.
Um imenso chifre profano espetando dolorosamente seu pobre coração acorrentado.
Escrever não funciona.
The drugs don't work, esquecer não funciona.
A vontade de esquecer é uma tatuagem no cérebro ou qualquer metáfora mais estúpida.

A vida não funciona.

Às vezes o sono de todo dia é interrompido por um tranco forte no corpo. A respiração entrecortada e forte, como se esperneasse.
Às vezes eu acho que estou só esperando minha vida começar, ele ouviu dizer aquela voz impossível de ser levada a sério. Exagerada, triste e doce.
Nessas noites ordinárias e despretensiosas, sonha-se com um emprego. Apartamento, carro, corpos de revistas. A família está feliz. A criança conseguiu, cumprimos nosso papel. Sonha-se com o casamento.
E a vida é uma banheira de águas mornas que nos fazem formigar o corpo. Sim, pois aí não temos como perceber que a verdade é ruim. Não sentimos. Nem dor, nem delícia.
E sonha-se com os sonhos antigos e a morte deles é lembrança de felicidade que não existe mais.
De tempos em que a vida não tinha acontecido e os sonhos ainda eram possíveis.

Porra, escrever não funciona!

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