Encontrei-o novamente na mesma esquina onde fica o bar. Ele tinha aquele grande olhar amarelo. Talvez visse mofo em todas as coisas e refletisse o tédio luminoso. Ninguém o via, pude crer. Seus passos eram silenciosos, lentos, "não há nada de novo por aqui". E seus músculos contraíam-se transparecendo a bruta força adormecida.
Atravessei a rua, "pss!"
Ele tampouco tinha visto a mim, até então. Atravessar a rua era a única coisa que me diferenciava do amarelado total.
Deixou-se ficar contra parede. Havia lixo, garrafas vazias e transeuntes. Ele estava despenteado; sempre no corpo a poeira dos lugares por onde passa... tocá-lo suja as mãos com as delícias de ter seu corpo rendido ao toque!
O poder, a malandragem das ruas atiram-se ao chão e murmuram
se joga em cima de mim
desliza
aperta
agarra, arranha, machuca!
geme...
As gentes olhavam com estranheza, os bêbados continuavam em sua bolha exaltada, ele continuava ali. Levei-o para casa. Muitas vezes já vira ele o meu jardim. Pequeno, carente, bagunçado e, ainda assim, florido. Recostada às pedras, pude tê-lo um pouco mais: e como era bonito! os traços fortes, como num desenho de criança contornado à canetinha. suas cores preta, branca, amarela, sujeira. sua divina assimetria!
Foi então que ele pôs-se distraído. Os olhos muito fixos no além, o transpirar inquieto. Selvagem.
"Vai!", e ele imediatamente foi.
Deitou-se no canto oposto ao meu, devorou-me com os olhos. Então atravessou as grades e se foi. Do lado de fora, ainda tornou a me encarar. Gostava de mim.
Eu não me mexi; era melhor que fosse ele a me deixar. Meu amado tem as ruas todas parar correr, eu posso apenas entrar em casa.
(...)
Mas minh'alma continua a espreitar as esquinas, buscando a selvageria louca do meu sonho negro
distante
impossível
e amado, tão amado...
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