As cortinas estavam imóveis. Parecia que o próprio Vento estava paralisado, como se respeitasse covardemente o porvir. Nenhum som; era um último suspiro antes do mergulho. Eu queria me levantar e sair daquela posição inferior e ridícula. De joelhos?! Não havia em mim o menor resquício de fé naquilo tudo. Eu queria vestir alguma roupa. Preta, de preferência. Eu queria usar luto por todos aqueles corações fadados a uma profecia. A multidão estava lá, na praça. As próprias chamas das velas não dançavam mais. Todos mantiveram os olhos no horizonte até que o céu estivesse inteiramente iluminado. Esperavam que o Sol ocupasse plenamente seu lugar. E assim foi. Não sei quanto tempo esse processo todo demorou. Eu sabia que as estrelas podem ir e vir muitas vezes antes que um dia esteja completo; só não desconfiava que aquela guerra seria eterna...
Quando o azul reinou e o amarelo com laranja deixaram de ser cores para se tornarem tão-somente luz, as pessoas assopraram as velas. Apagaram suas chamas. E, uma a uma, foram caindo ao chão. Como folhas no outono, como lágrimas de moça. Como as cortinas no meu quarto, as vestes da multidão flutuaram até que bem docemente no ar. E se acomodaram uma sobre as outras, mas tão delicadamente que não parecia confusão. As pessoas assopraram suas almas contra a chama das velas. Lançaram suas almas ao mundo como se libertassem pássaros de gaiolas douradas. E deixaram de existir.
Era como encostar uma concha contra o ouvido. Eu era a sensação de vida no mundo. Mas assim como o mar não estava na concha, o mundo não estava em mim.
4 comentários:
Esse último parágrafo foi uma das coisas mais animais que eu li nos últimos tempos. Achei tão sensacional que até queria ter escrito antes de você. Uma ponta de inveja, mas uma inveja boa, se é que me entende. Rs...
Parabens!!!
"We can be heroes just for one day"
Menina, não faça isso. Seguido de tapa carinhoso na mão.
apelação ^^
Belo texto.
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