Minha primeira reação foi gritar. O mais alto, louca e desesperadamente que conseguisse, na esperança de que minha alma também se me saísse pela boca e ganhasse a liberdade do desconhecido.
Querer estar com os outros foi estranho em mim. Era o meu clichê: estar sempre rodeada de pessoas e recheada de solidão. Mas então todos sumiram. Os que me fizeram sangrar, os que me fizeram amar e os que não fizeram nada. As crianças sumiram! E eu só fiquei ali, no chão. Senti uma irritação qualquer na perna e me cocei. Então percebi que havia acabado de matar uma formiga. Uma pequena formiga a me irritar a perna era a única criatura a ouvir meus lamentos, e eu a havia matado!
Mais que a ausência dos outros humanos, havia uma ausência de humanidade em mim. Só vida. Igual à daquela formiga. A pequena formiguinha que eu tinha matado me fazia ser como a assassina de uma pessoa qualquer. Não existiam mais parâmetros evolutivamente presunçosos para repreender o luto do meu crime.
Eu gritei. Mas a cidade vazia engoliu meu grito como um monstro faminto. Então não fazia diferença chorar baixinho ou ficar ali parada. Eu poderia me matar, mas isso também não mudaria nada. 'A profecia é uma história obscena', poderia-se pensar. Por que haveria a humanidade de sumir? Não sei. Mas não existiria obscenidade alguma não fosse o fato de eu estar ali. Presa à existência num altar do não-ser. E por quê? Essa, sim, é uma boa pergunta. Mas os ecos da minha própria cabeça eram mais enlouquecedores que os corredores da cidade vazia... Fiz silêncio e ouvi. Estava tudo em paz. Sem tristeza, só paz. Um pardalzinho voava. As baratas deviam estar correndo pelos encanamentos. Não doía tanto existir no mundo. Doía existir em mim. Então calei e dormi, mas não havia sonho algum.
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