terça-feira, junho 30

A Parada Branca

Não me lembro dos meus sonhos daquela noite. Havia dormido a muito custo, numa estranha concentração em me desconcentrar dos medos que rondavam minha mente. Talvez estivera em alfa por apenas alguns momentos quando os lençóis esfriaram. Bruscamente ficaram gélidos como se a própria Morte os tivesse tocado, e o tremor em meus ossos me despertou. Pus-me alerta, mas o corpo não respondia ao instinto de sobrevivência. Sentia uma moleza e forte dor física, como se em overdose e abstinência ao mesmo tempo. A janela da sacada estava aberta e as cortinas sacolejavam lentamente, assombradas. Caminhei até a vista do quarto. Era como diziam: ainda era noite e as sirenes começaram a soar. Os apitos longos e constantes eram como um grito misto de alarme e conformismo, eram o caos inevitável. Avistei no centro da praça um homem grande e encapuzado. Trilhou seus passos até lá numa solenidade estúpida, e com estúpida força curvou seu corpo num musculoso C e acertou o gigantesco prato dourado com uma baqueta. Na primeira vez, senti o som ecoar por todo o meu peito vazio e minhas pernas bambearam. Mas ele tocava o prato com um ritmo perfeito, em maligna harmonia com as sirenes insistentes. Tudo iria insistir, eu sabia. As pessoas começaram a sair das casas. Murmuravam. Todas vestidas de branco com brancas velas acesas nas mãos. A sinfonia ditava seus passos. Murmuravam ininteligivelmente e os milhões de suspiros juntos formavam um angustiante grito lamentado. Ininterrupto. A profecia havia sido tão religiosamente pregada ao longo do tempo que se punha a acontecer sem ensaios e sem falhas de seus atores. Nada estava fora do lugar. Todas as mentes haviam se desligado da sua energia vital? Todas as personalidades deixaram de existir? Todos acordaram sem se lembrar de seus sonhos, ________?! Eu via tudo em câmera lenta. As brisas lambiam meus cabelos em lentidão e devagar eu respirava. Era como se uma dimensão infernal tivesse mascarado tudo quanto era o Mundo. A multidão ia se aglomerando ao redor da praça, posicionada em direção ao leste. Num milésimo de segundo o primeiro raio alaranjado cortou flamejante os Céus e findou a Primeira Noite da profecia. As sirenes, o prato e os lamentos terríveis silenciaram. Minhas pernas cederam num baque surdo e me botaram de joelhos. A Manhã de Guerra começara. Minha vela não estava acesa; eu sequer tinha uma.

Um comentário:

Thiago Gacciona disse...

Sensacional!!!
Quando paramos pra visualizar, até damos um tempo para respirar fundo...
Inspiração e sensibilidade!