segunda-feira, julho 27

redrum

Aquele sol amarelo estava a uns 30 graus da linha do horizonte, há pelo menos duas semanas, no mesmo lugar. A torre do relógio estava parada; seis e treze da manhã, sempre. Todos eles, parados. Menos o velho relógio de madeira na sala. Ele rangia de quinze em quinze minutos o cuco na minha mente e badalava len-ta-men-te, com uma precisão infernal, as horas do tempo humano.
Não existia mais nada de humano, só aquele relógio e seu tempo estúpido. Eu zanzava pela cidade, mas não havia nada por ver. O chafariz da praça havia se imobilizado. A própria água no ar parecia mais um plasma gélido, o ar em cordas e gotas furta-cor. Era maravilhoso e completamente enlouquecedor. Eu não a podia tocar. A incrível energia cósmica de água estava ali somente como uma nítida memória da sede. Lindo, mas inexistente.
Eu começava a ver os ossos por baixo da minha pele pálida. Eu via o cuco da minha mente no relógio.
'Futuro', ele piava. De quinze em quinze minutos.
Eu via o cuco da minha mente por entre meus dedos.
'Socorro', ele piava.
E então explodiu. Penas brancas e líquido vermelho.
'Bebe', ele chorava.
Eu tinha sede. Mas não bebi. Não, não! Eu chorei. E chorava mais a cada lágrima que caía, porque elas também se transformavam em memórias e flutuavam energicamente no ar. Fora de mim a água e as memórias.

O cuco não piava mais.

Um comentário:

Jaum Godoy disse...

Ok, é uma super viagem minha, mas certa vez eu parei diante da fonte (na época, luminosa)aqui da cidade e fiquei olhando o jato de água que subia e descia.
E fiquei imaginando como seria poder tocar aquela água, sentir a força que ela encontrava pra subir tão alto.
E pedi que um dia eu tivesse aquele pique, aquela energia. Li seu texto e lembrei disso.
Por que? Um dia eu saberei. E aí te conto!