No inverno até o sol tem preguiça de sair da cama. Já passavam das seis quando deixei aquele antro quente de neon e nada de amanhecer. O cinza esbranquiçado do céu chacoalhou meu juízo preguiçoso de volta às riscas da vida. Mais algumas horas e eu já deveria voltar à redação.
- Você de novo?
- Pois é. Só te encontro quando estou perdida, parece.
- Não me parecia perdida lá em cima, perto do bar.
- É, eu não estava mesmo.
- Haha viu? Minha amiga ficou com ciúmes.
- Mesmo?
- É. Você não quis disfarçar nem um pouco que estava olhando pra mim?
- Hoje não. E por que você não deu mais atenção pra sua amiga?
- Porque eu só via você.
- Ah...
- Meu nome é Alexandre.
- Mariana.
- É... E eu já tenho que ir embora.
- Não vá se perder por aí.
Mas ele se perdeu, é claro. Como todos os deliciosos amores platônicos da noite. Rápidos e ladrões de fôlego. Ele poderia ter me roubado um beijo e assinado seu nome na minha lista secreta de conquistas sem perdão. Mas preferiu redigir uma cena de cinema, com diálogos impossíveis e desfecho irritante. E eu até que gostei mais assim.
Esperando pela hora de trabalhar, sozinha eu refazia meu curta dramático e os traços do meu protagonista. O olhar doce, os cachos castanhos no cabelo e a barba que parecia tão macia.
O café e os pãezinhos de queijo fumegavam à minha frente. Do lado de dentro da vitrine, observava a rua quando um par vermelho de all-star adentrou o restaurante, devagarinho. Ele deixou seu Kerouac na mesa ao lado e foi até o balcão pedir um capuccino.
[Hesito um momento. A nostalgia da minha última paixão, mistério-do-não-será, se esvanece. Decido que minha próxima estória seria feita mais por aprender que ensinar. Subo minha torre e espero, lá de cima, que ele pergunte meu nome. Deixo sempre flores à minha janela, enroscadas por toda a torre numa estrutura de madeira. Ele poderia escalar, se quisesse.]
Ele olhou pra mim e eu li seus pensamentos. Tão rasos, um querer sem entender. E imediatamente acabou. Senti aquela velha conhecida sensação e o culpei, por um segundo, por ser mais um completo incompetente e não me aquietar o coração.
Talvez as pessoas prefiram ser coadjuvantes. O roteiro da novela das oito.
Terminei meu café e fui trabalhar enquanto ele me observava partir e ficava, só, do lado de dentro da vitrine.
Um comentário:
Algumas vezes é díficil tomarmos as rédeas para nos tornarmos os personagens principais.
O texto ficou sensacional (com trilha de Rolling Stones - Stripped), acho que é o mais gostei de todos que você escreveu.
Bravo!!!
Between 'Love in Vain' and 'Sweet Virginia'
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