quarta-feira, julho 29

Terceiro

Começou inocente e impreciso. Ela andava pelas ruas achando que um passarinho cagaria em sua cabeça. E, no exato instante, um passarinho cagava do outro lado da rua.
O fim do dia era uma mochila exausta num sofá largado. A televisão ligada fazendo barulho fazia a casa parecer menor e menos sozinha. Ela fechava os olhos e ficava sentindo as luzes mudarem ininterruptamente. Imaginava-se a personagem principal de histórias incríveis. Beatrix Kiddo com poderes de Jean Grey e tempero Tangerine.
Então um dia percebeu que havia gasto seus melhores roteiros com a imaginação. Cada história sonhada era uma realidade descartada!
E a pequena bruxa tornou-se uma cética inquebrável. Como poderia, afinal, o próprio destino vencer o desafio de ser melhor roteirista que ela? E, por sua vez, qual o arrepio na nuca em se aceitar do carma um contrato medíocre? Isso não. Jamais. Jamais inquebrável? Que condenação a tal treva é essa que uma mulher pode sofrer ao se aproximar de Lilith? Chuvoso o dia em que aprendeu o nome dessa sua trilha. Não que ela não soubesse; desde o despertar, sentiu na espinha uma estranheza qualquer e, numa conversa de botequim, adentrou o universo:
Um conhecimento adquirido é tal qual uma porta arrombada ou cicatriz na alma. E, uma vez abertos seus olhos, não há volta...

Um comentário:

Larissa Costa disse...

menina moça!!

escreves cada vez mais magnificamente bem...

abertos os olhos realmente não há volta...


kisses