Uma rápida busca na internet explica: fait-divers é um jargão do jornalismo utilizado para designar matérias diversas, geralmente com um toque de bizarrice. Temas leves, curiosos e que, geralmente, não costumam comprometer ninguém.
Noticiar, seis meses depois, a morte de um homem não é, realmente, o que se pode chamar de notícia quente. Trata-se de um homem comum, José no Brasil ou Hans na Áustria, pagador de impostos, que nunca ganhou um Prêmio Nobel da Paz. Mas o Hans austríaco em questão virou notícia no Brasil porque morreu sem que ninguém notasse. Os vizinhos dele não sentiram falta, não se sabe da família. Apenas foi procurado pelo condomínio por ter ficado meses sem pagar as contas. Hans – seu nome verdadeiro nem chega a ser citado na matéria – foi encontrado em quatro de setembro pela polícia de Salzburgo. A única companhia era a televisão, ainda ligada. Ao lado de sua poltrona, a programação da tevê, datada de doze de março.
Não se sabe como partiu. Talvez Hans percebera os programas naquele dia extremamente tediosos. Talvez tenha morrido de solidão, este poético clichê.
Ao final da matéria, duas linhas comentam que, na mesma cidade, outra aposentada fora encontrada meses antes, morta há pelo menos um ano e meio. Em duas linhas não se faz nem um minuto de silêncio.
Talvez não haja tempo para cumprimentarmos o vizinho; eu mesma não saberia se algo semelhante acontecesse na casinha ao lado da minha. Talvez um jornalista não tenha tempo para refletir sobre o que faz uma pessoa ter seu nome noticiado ou não. Talvez um brasileiro não tenha tempo para sacar que um morador de país de primeiro mundo também sofre. Talvez o cansaço da semana não permita que haja tempo para se perceber que, mortos ou vivos, a televisão continua incessantemente ligada, a exibir o mundo.
Hans virou notícia porque sua morte foi bizarra e curiosamente triste e, sem nem ao menos estar na contramão atrapalhando o sábado, foi classificado um fait-diver.
Continua, afinal, sendo universal a voz do poeta: O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso.
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