quinta-feira, setembro 10

Jornal da meia noite

Chegou e se pôs a arrumar a casa. Os sapatos mui dignamente tortos no corredor, a calça pendurada na maçaneta da porta da sala, a blusa quente do ritmo da cidade no braço do sofá e o sutiã em cima da pilha de filmes (assistidos à exaustão) ao lado da tv.

"É culpa da natureza."
(E as pessoas com seus jeans redobrados até metade das pernas, navegando naturalmente em turvas águas fétidas a lamber o asfalto. A inundar a geladeira paga a prestações, a carregar as sobras da existência e a transbordar os peitos, tão cansados)


Ela ouvia frases desconexas que a tv jornalística e propagandísticamente cuspia para o ar, mas prestava atenção às cores sempre-piscantes em suas paredes tristonhas. A luz da tv não enchia o apartamento.

"Será que vou ao Planeta Terra?"
(E cores grafitadas em montanhas-russas ao som de músicos eletronicamente gringos)


Ela ouvia frases desconexas vindas do vizinho que distraidamente conversava após quatro minutos e vinte e sete segundos de sexo com alguém. Mas as palavras do fim do dia não enchiam seu coração.

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