Hesitava entre o sofá-floral da sala e o sofá-laranja do quarto:
Vou,
e então voltava arrediamente para as flores.
Medrosa!
e a verdade ecoava pelas quinas da sua cabeça, irritando cada neurônio.
Merda,
e ela cedia à provocação.
Fechava os olhos e com a mente felina reconstruía as imagens e sons que não queria perder; gastava imprudentemente segundos infinitos em cada memória.
Como um gato a brincar com sua presa:
segurava a madrugada com os gominhos da pata
áspera e delicadamente - pra não quebrar
e usava um tiquinho de garras
certeira, lenta e violentamente - pra machucar, mas não muito
O ideal seria comer a presa viva.
- Você quer que eu venha num cavalo branco?
Não. Mas poderia roubar uma flor num jardim pelo caminho.
Não se dava à inteligência de evitar o passado e fazer os joguinhos: cinco difíceis semanas em busca da conquista do respeito e da valorização.
Bonita, inteligente, mulher. Não, não nessa ordem. Bonita, mulher, inteligente. Não. Bonita, boa de cama, inteligente, mulher. Não.
Escancarava as portas da sua (feminina, masoquista e delinquente) percepção.
Garotas, garotas, garotas!
Tomara que sejam lésbicas.
- Você tem cara de...
E deixava os dias passarem
até esquecer.
(só não esquecia que queria ter no que lembrar as coisas pra esquecer)
Como um gato andando pelo muro
a ostentar sua independência
na real torcendo pra um cão a coma,
sua presa viva.
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