sexta-feira, setembro 25

Curso de jornalismo, a saga: soco no estômago

Mais uma sexta-feira passível de ser 13 na universidade. O Diretório Acadêmico de Comunicação organizou um evento especial: a exibição do filme “Batismo de Sangue”, seguido por um debate com presença do jornalista e pesquisador João Roberto Laque e dos ex-combatentes da ditadura militar no Brasil, Alípio Freire, jornalista, e Takao Amano, advogado.
O auditório estava cheio. Eu mesma, atrasada, passei parte do filme sentada no chão. A luz do telão iluminava os olhares fixos e os corpos que se contorciam, com genuína aflição, às cenas de tortura.
Batismo de Sangue escancara a violência a que foram submetidos os simpatizantes do grupo guerrilheiro Ação Libertadora Nacional, comandado por Carlos Marighella - inclusive os freis Tito, Betto, Oswaldo, Fernando e Ivo, envolvidos na resistência.
Não creio que seja desnecessário o peso das cenas do filme, inspirado em livro homônimo de frei Betto. Existe na violência retratada um precioso valor histórico e humano; ela é capaz de resgatar, pelo estômago, a memória de um povo. A consciência crítica dos fatos passados no país deve ir além dos comentários nas aulas de história e de comentários apaziguadores, como o da Folha de São Paulo, que apelidou os anos de chumbo de “ditabranda”.
A verdadeira joia da noite estava, porém, na presença dos convidados para o debate. Alípio Freire e Takao Amano, que chega a ser citado no filme, sentiram na pele – literalmente – o que conta o enredo.
E, justamente durante o debate, o auditório se esvaziou consideravelmente. Talvez as pessoas tenham ido para casa, talvez tenham ido aproveitar a noite de sexta-feira no bar.
Ficaram aqueles, jovens como eu, sedentos das palavras dos personagens ali presentes. Takao não subiu ao palco; provavelmente emocionalmente envolvido demais. Laque, embora fosse criança nos tempos da repressão, trouxe seu conhecimento e paixão indignada. Alípio, porém, falou com impressionante lucidez. A vitória da democracia é gente como Alípio Freire andar explícita e livremente por aí armado de seus pensamentos.
E fizeram, como não podia deixar de ser, a fatídica pergunta: aonde está o engajamento da juventude atualmente? O que é possível fazer?
Laque, divertido, comentou que a luta armada continua por aí, nos botecos, discutida entre cigarros desiludidos e reconfortantes copos de cerveja gelada.
Alípio? Calmamente, explicou: a juventude de hoje são trabalhadores, filhos de trabalhadores. É esmagada sob salários muito mais medíocres do que os dos anos 1960, sob demandas mais cruéis e cargas horárias mais insanas. Mas a juventude de hoje vota democraticamente e vive um governo assumido por um partido (que costumava ser) de esquerda. Não botamos a cara no mundo, fora das asas de nossos pais, porque nossas contas no banco são quebradas. Mas continuamos. Pagamos nossos cursos universitários, buscamos a formação e podemos nos organizar. Formar sindicatos, ONGs, diretórios acadêmicos. Ou discutir e mesmo xingar os governos nos bares por aí.
Naquela noite eu levei um soco no estômago e enxerguei que era bom. E dormi bem. Cansada por ter trabalhado o dia inteiro, mas com algum sonho guardado pra ser vivido.

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