quarta-feira, março 17

Rotina

Tinha um elefante sentado no meu peito. Mas assim, com a bunda largada mesmo, daquele jeito que dá a sensação de que o peso é ainda maior. Dos lençóis mornos e desarrumados na minha cama, eu me entretinha em apenas existir. Olhava a bagunça ao meu redor e o esforço preguiçoso que a luz fazia pra entrar pelas frestas da janela metálica ainda fechada. Era quase meio-dia, assim. Quanto mais eu ficava na cama, menos tinha vontade de sair de lá. Fazia uma vaga ideia de como estava o meu cabelo: com gripe grudada nas madeixas que, em vez de sedosas, deviam transmitir seriamente a saudade do xampu. A franja, a porra da franja, com certeza estaria despenteada de modo que eu me olharia no espelho e ficaria imediatamente de mau humor, associando minha imagem ao topete com mullets tenebroso dos anos 80. Merda, merda. Às vezes meu pensamento se voltava ao emprego. Na real, eu pensava que a cada segundo inerte na cama, eu dava um enérgico passo em direção à demissão. Ehn... Não era o suficiente pra me fazer levantar. Então eu voltava, respeitosamente, a pensar no frágil esforço que fazia pra respirar. Podia mesmo ouvir o som forçoso do ar que passava pela minha garganta e procurava um espaço nos pulmões cansados e congestionados. A palavra congestão me faz pensar em meu nariz. Nele e nos piercings que botei nele, que parecem uma porra dum fardo agora. Tanto a delicada estrelinha na narina como a negra ferradura no septo, nenhum dos dois parecia muito engraçado agora que meu nariz tinha perdido sua função básica de respirar com eficiência. Pensei então em pegar um maço de cigarros qualquer e grudar toscamente com fita crepe na porta do meu armário. Num canto que tivesse visão privilegiada da preguiça da minha cama. Crucificar a porra do cigarro, assim. Tipo "Você é minha vadia, está aí pra todo mundo ver e eu não vou fumar você. Uma vadia rejeitada."


Mas aí eu saio da cama, tomo um banho sem olhar no espelho como de fato estava o cabelo e boto uma roupa social. Continuo com aquela tosse sofrida, mas trago meu corpo insolente pro escritório. Escrevo esse texto e tento não pensar muito profundamente em que tipo de pessoa esse contexto todo me insere. Tem uns telefonemas aí pra fazer.


Lembro uma última vez como odeio telefones. Aquela porra tocando dentro da sua casa, enquanto você tá tentando se alienar. Ele toca, faz um barulho tosco e te obriga a levantar do sofá e tirar sua cabeça da grande onda em que você estava. E, pode apostar, do outro lado da linha tem alguém querendo alguma coisa de você. Alguém faz barulho dentro da sua sala pra te pedir alguma coisa. Nem que seja amor, sei lá. Tão sempre pedindo, protegidos por esse mecanismo prepotente da sociedade que te enfia na cabeça, desde pequeno, que você tem que atender.


Tá legal.


- Uh, alô?

Um comentário:

Anônimo disse...

"eu me entretinha em apenas existir" ??????????... aff, eu nem vou ler o resto! ._.