Bom, meus caros. A dor de cabeça passou – aparentemente ela só surge entre 31 telefonemas e as três da tarde – e finalmente posso continuar a tagarelice sobre a frase mais machista do mundinho-meu.
A manhã já tinha começado num pique de orgulhar Kim Gordon.
- Mulher só serve pra dar!
Lançaram uma pérola dessas por volta das nove e meia da madrugada. Eu nem havia ainda bebido um café. Pior: eu estava preparando meu café enquanto ouvia isso, e seria obrigada a deixar que os garotos do escritório bebessem o resto do meu negro elixir, como se, numa carinhosa demonstração de espírito esportivo, a mocinha tivesse meigamente preparado o café para o time. Aaaah!, como eu sonhava com as doses individuais...
- Só se for pra dar um tapa nessa sua orelha mal-criada!
Sim. Essa foi a patética resposta que consegui proferir às nove e meia da madrugada. Dona Florinda teria feito melhor. Eu, no auge de meu ativismo político, tendo já merecido o apelido de “comunista” no colegial, cheguei à lira dos vinte anos com um repertório tosco de respostas-rápidas. Lembrei-me de uma amiga nos tempos de pequeninice – algo por volta dos treze anos - que já nos anos noventa havia formulado uma antítese melhor. Uma pernalta garotinha loira e batista revolucionou a sala de aula ao dizer, com ares simplistas e simplórios e extremamente divertidos:
- Mas é a boca que come a banana.
Todos foram obrigados a dar uma risadinha envolta em virgindade e pudor e, acima de tudo, concordar. E então me aparece aquela criatura pretensiosa, metida a espertalhona, artista plástico e poeteiro, acreditando que estava revolucionando o mundo ao mudar seu niquenaime no eme-esse-ene para “O melhor movimento feminista ainda é o dos quadris”.
Repensando agora com um esforço extra para buscar o que existe e empatia em mim, talvez, TALVEZ, o poeteiro estivesse fazendo um elogio às garotas.
Elas, capazes de rebolar por natureza e de arrancar suspiros de pedreiros mesmo nos piores dias do ciclo menstrual, demonstram maravilhosamente bem sua superioridade sexista ao controlar os pensamentos masculinos com o movimento dos quadris. É a constatação impetuosa dos fatos: a boca, delineada por um incrível batom vermelho, come a banana tosca e obediente.
E aí, tese aprovada pela banca?
Não!
Justificar as relações humanas por meio de comportamentos sexuais não nos difere em nada dos outros seres vivos que são obrigados a habitar o planeta conosco. Pobres amebas.
De qualquer maneira, não acredito que seja exatamente um estímulo orgástico pensar que todo o meu poder de convencimento está intrínsecamente atrelado às minhas entranhas. Pensar em sexo não dá tesão, resumindo. De certa forma, o celibato talvez seja ainda mais revolucionário que o movimento dos quadris. Se me chamarão de frígida? Talvez, mas nada que um decote e unhas pintadas de rosa não resolvam.
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