Toda boa história começa num dia em que tudo deu errado porque é praxe do ser humano atribuir à loucura a qualidade de erro.
Três horas e quarenta e sete minutos da tarde. Eu dormia num sofá verde, desses muito moles e usados como cinzeiro de motel. Tinha uma leve caimbra na batata da perna esquerda e sempre a mesma música na cabeça. Acreditava que eram seqüelas de minha vida passada e repetia essa história toda vez que estava bêbada, em inglês.
I died when I was 29, man. I know, way too young to die, but I've gotta tell you, I bet you'd envy me. It was 11 hours n' 11 minutes in the morning, three days since my last sleep. We were all singing 'with a little help from my friends', betting a race. I fell on the ground, my heart ached and I said 'the time is close, my dear'. And then my beautiful friend and I had the most crazy sex ever in this really weird position, and that's why my leg hurts. Huh? Yes, Joe was his name. Not the real one, of course. My heart just stopped beating, my darlings.
Fingia um sotaque britânico esquisito, era um pouco corsária e de uma calhordice adorável - ou pelo menos assim disse um amante, certa vez. Eu gostava de contar coisas desimportantes e falar como uma lavadeira a torcer roupas sobre o imediato ao meu redor, porque o mundo seria um grande tédio se ninguém comentasse suas folhas secas no chão.
Nenhum de meus amigos fazia parte do que me trouxe até aquele velho sofá. Encontrei-os pelas ruas e fiquei com qualquer um que soubesse ouvir e muitos dos que não se importavam também, desde que gostassem da noite e tivessem um quarto. Tinha uma mochila vermelha com algumas peças de roupas, e gostava delas porque eram um bom motivo para ir à lavanderia e ouvir música com fones de ouvido, embora fosse crucial que ninguém soubesse que canções havia lá.
Fazia um calor preguiçoso e, sinceramente, não tinha a menor intenção de acordar antes que escurecesse de novo. O asfalto guardaria calor suficiente para esquentar meus braços nus durante a noite também.
Ao lado, o cara do sofá azul que comia sucrilhos ficou entediado, mesmo que a observasse e ela soltasse suspiros estranhos enquanto dormia. Não tinha tanta graça assim imaginar quais eram seus sonhos quando eles poderiam mesmo ter qualquer cor. Pegou seu celular sem agenda e descobriu lá um blues muito doce. Imaginou que a´única razão para existir seria uma relação com o passado. Ele riu dessa e de outras as outras músicas, riu bem alto e quis abraçá-la. Encontrou ainda uma carta antiga no fundo de sua mochila. Era ainda muito branca e limpa, embora tivesse arestas marcadas pelos dedos de quem leu exaustivamente palavras de amor. Ela acordou ao seu silêncio pasmado, como quem sonhava melhor ao som de gargalhadas. Ele percebeu, guardou a carta e não conseguiu disfarçar o celular.
Senhor Sucrilhos, why won't you die, bloody asshole?!
Sabia que cedo ou tarde isso aconteceria. Um curioso qualquer poria a mão cheia de dedos onde não deveria. Dever, nunca gostei desse verbo. O senso de obrigação paira como um urubu faminto sobre os últimos sonhos que a gente ainda tem coragem de guardar. Paira nessa palavra um quê de inevitabilidade do destino e os sonhos se transformam em urubus e a faminta é a alma.
Levantou-se num tranco e a tal perna fez com que tropeçasse. Atirou nele almofadas, tênis sujos e meteu-lhe um soco no ombro e palavras irritadas que soavam como cristal quebrado no chão. Ele fez silêncio, deixou que ela pegasse de volta o telefone, enfiasse as roupas na mochila e batesse a porta ao sair.
As outras pessoas do apartamento mandaram-no à merda por ter feito tanta bagunça, o irritante barulho do mau humor tomava conta do lugar.
E então Senhor Sucrilhos saiu também. Não foi atrás de Stela; ela voltaria para matá-lo assim que se desse conta do item perdido. Procurava o endereço do remetente da carta. Levou três dias até chegar a um pequeno e arejado apartamento na praia. Reparou no gato amarelo na janela, nas almofadas coloridas no chão e nos desenhos nas paredes que se pareciam com as coisas malucas de que Stela falava. Havia sorrisos debochados no escuro, flores em espiral e o rapaz que fumava com jeito de poeta sentado no chão.
R. não desviou o olhar até que que reconheceu o motivo que trouxera Senhor Sucrilhos até ali. Era uma carta sua para SteLla e, porra! R. não ouviu o restante da explicação. Remoeu-se de dor, quis chorar mas as lágrimas feririam seus olhos negros ainda mais.
Se ia atrás dela? R. pensou mais nos minutos que passavam enquanto pensava do que nela. E se escolhesse a droga do segundo errado para se levantar e a encontrasse usando seu vestido azul para outros olhos?! Esperou que o relógio dissesse 17:17, suspirou. Pra onde, Sucrilhos?
Stela estava num banco da cidade, debaixo duma árvore muito velha que lhe dizia que naquele banco costumava sentar-se um ator falido que lhe recitava poemas de Baudelaire. Je ne parle pas français, deu-lhe StelLa a única resposta possível e mexeu em sua mochila. Ela sabia que não iria encontrar a carta. Sonhara já muitas vezes com aquela cena e agora tinha certeza de que seria real.
Katastrophe, es muss sein!, eu disse - porque era a única coisa que poderia dizer. Levantei-me e segui pela rua da padaria das carolinas, dei uma volta no quarteirão do poste onde havia o adesivo de alienígena e avistei o velho cão Pirata, porque era assim que tinha que ser.
Chegou à grande avenida e vi do outro lado o distraído Senhor Sucrilhos ao lado do meu melancólico poeta R.
O coração bateu rápido quando vi o ônibus de itinerário Paraisópolis. Meu poeta chamava do outro lado da rua. Tinha ele reconhecido o ônibus também? Tantas vezes eu quis dizer...
Ela atravessou, o ônibus atravessou, e seu poeta a chamava do outro lado da vida.
My heart just stopped beating, ele repetia ao ver sua StelLa no chão. E sorriu ao ver que, como ela prometera, a cor do sangue até que lhe caía bem.
Um comentário:
guria, para de escrever textos grandes que eu morro de preguiça de ler.
atenha-se as poesias por favor ok?
você tem talento pra isso
(eu sei que esse comentário vai só te instigar a ser do contra mas tudo bem =D)
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