Não consigo passar batom. Sozinha, em frente ao espelho, já fiquei algumas vezes a fitar meu rosto quando estavam os lábios pintados de vermelho. Mas de um vermelho assim, sangue!
Não me pude reconhecer. Estava ali a mesma ingenuidade inescapável, a mesma terrível docilidade, os meus olhos infantis.
Bom, talvez não sejam dos olhos a culpa. Nunca me esqueci de uma aula de literatura que tive. Falava o professor sobre Capitu e a ressaca de seus olhos que arrasou o otário Bentinho. Ele se demorava no discurso, eu demorava meu olhar nele. Sei lá quanto tempo se passou antes que eu visse meu reflexo no rosto dele. Era sobre mim a descrição? Ele tinha um jeito muito dele de falar. A voz clara, baixa. Falava rápido como quem é sagaz, sem nunca atropelar palavra alguma. Aquele rosto de menina, saca? Imagina como não ficou o Bentinho quando ela mostrou com os olhos que era também uma safada?! A classe riu, mas eu acho que fiz uma cara perversa, como se a safada fosse eu, porque o professor não esqueceu meu nome nunca mais.
Não que Mariana rimasse com Capitu.
Não rima com nada que seja maroto, malandro, maldoso. Mariana não bebe, fuma, transa, fala palavrão. Mariana traz implícita no nome uma sabedoria muito feminina e popular, mas nunca é levada a sério. A sua inteligência não brilha, seus erros não fedem. Mariana não está nos poemas, nas histórias medievais. E acho que meu rosto é mais Mariana que meu próprio RG, mas talvez esse não seja o pior.
É que Mariana não faz sofrer por amor. É sempre aquele sorriso comedido, sempre o equilíbrio no muro.
Mas quer saber?
Eu quero mais é que esse muro caia!
Eu quero o grito ardido de quem ri e sente o rosto se aquecer pelas lágrimas, quero o arrepio na nuca e a vontade de usar as unhas, e eu quero uma loucura das boas tingindo tudo que me for palavras de amor...
Um comentário:
e acho que quem escreveu o texto foi a Anna, sobre a Mariana...
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