quinta-feira, agosto 7

Sobre os ombros

"Eu me sinto tão cansada", é a única coisa que pede pra sair de meus dedos ultimamente, toda vez que abro essa janela de blog.
É o que penso quando sou somente Mariana, quando tiro as roupas que disfarçam o que sou e não aparento ser, sem parecer com quem realmente sou.

É somente essa merda que penso quando fecho os olhos?!
É somente essa a sensação que se reserva pra mim?

O demônio estúpido com os dentes cravados em meu ombro esquerdo, o arder constante a que aprendi a me acostumar, sem nunca me deixar esquecer de que está lá.

É quando guardo Anna em mim, bem dentro. Eu a protejo com tudo o que houver no poder de meu corpo e de minha mente.

E assim a Mariana vai quebrar. Em alguns dias, é só um arranhão. Em outros, um soco na boca do estômago.
Eu morro. Mais, ou menos, mas todos os dias.

Eu vou acordar pelas manhãs e procurar meu café. Vou respirar fundo e abrir os braços pra mais um dia inteiro. O emprego, a família, a faculdade, o barulho do telefone, a luz do computador tornando meu rosto pálido, pálido. Os noticiários em todo lugar, os atentados, as prisões justas, as injustas, a guerra, o desmatamento e o aquecimento global, o último macaco, a pichação no casaco de pele, as leis de imigração. Pessoas querendo ir, pessoas chegando. Pessoas fugindo, buscando, andando vivendo tornando o mundo maior, gigante. As insuficientes 24 horas do dia, as ilusórias 8 horas de sono!

Eu vou deitar meus ossos moídos no colchão pago a prestações. O cansaço vai varrer meus últimos pensamentos, até que eu deixe de pensar.

E a Anna vai sussurar no meu ouvido os sonhos da madrugada louca, que eu vou esquecer ao ruído do despertador.

Dirá que meus olhos continuam bonitos, mesmo no rosto pálido. Das inocências que fazia quando pequena, da grandeza que tinha o meu coração. Das razões que eu tive quando entreguei minhas veias ao turbilhão. Do idealismo em chamas, minha juventude que tentam tirar! Dos livros que ainda não li, que ainda quero escrever. Da certezas de minha alma, que apelidam utopias! Anna repetirá o nome secreto do meu amante lindo, do meu amante louco, e meu sangue correrá mais rápido quando se lembrar dos sonhos que tenho sobre o que ainda pode ser...

E eu darei meu rosto ao mundo de novo, porque esses olhos hão de continuar bonitos enquanto o que existe de Anna em mim viver...

2 comentários:

Anônimo disse...

pena que precisa ser tão triste para ser tão bonito. é cansativo viver mesmo.

Quem sabe eu um dia não converse com essa Anna aí.

Rweva disse...

a lílian morreu