terça-feira, julho 29

Das cicatrizes que nunca sangraram (ou Missa do Galo)

Faz já algum tempo, mas as memórias daquela noite permanecem estranhamente vivas em mim, como se fossem de um sonho, desses que nos despertam o desejo de guardar cada detalhe, embora saibamos que não tenha sido real.
Estava casada já há três anos e, como tantas outras coisas na vida, não o fiz por amor. Contava então vinte e sete anos, e mamãe já me vinha dizendo há algum tempo que não era do feitio de moça direita continuar solteira. Chiquinho era viúvo e escrivão. Um bom homem, preciso ser justa, jamais deixou de cumprir com suas obrigações na casa ou no trabalho. Mas não era bom marido esse homem que tinha a mim por obrigação!
Semanalmente ele ia ao teatro, passando fora a noite toda. Nunca se explicou, nem eu o questionei. Mamãe dizia-me que um homem tem seus direitos e que uma esposa deve honrá-lo incondicionalmente. Fingia então não ouvir os comentários das escravas na cozinha e seus risos debochados: Seria a amante boa como eu?! Uma nova parte de mim se calava: a boa esposa maometana que já havia calado seu riso, desaprendera também de chorar.
Jamais abri mão, porém, de ter esperanças nas reviravoltas da vida. Fosse por acaso, destino, não importa: no fim das contas, o acaso é um músico, disse um poeta. Ah, e como essa minha vida pedia uma boa serenata! Eu me coloquei em constante estado de platéia. Mais belos são os improvisos rápidos e sutis, e meu coração já não poderia perder uma nota que fosse.
Houve então que Chiquinho trouxera para casa um jovem rapaz de Mangaratiba. Chamavam-no senhor Nogueira, o primo da primeira esposa de meu marido. Veio à capital para estudar e, apesar de ter já dezessete anos bem formados, percebi nele uma pureza ainda muito mais moça. Ah, deslumbrava-me seu modo menino de encarar as novidades do mundo que descobriu na Corte!
Certa vez, ao ver meu marido em nova saída para os seus teatros, pediu-lhe que o levasse consigo. Era como se eu ouvisse, por um instante, os fantasmagóricos deboches das escravas novamente. Mas o rapaz teve seu pedido negado. Percebi, naquele momento, que havia ali um moço que não se tornaria um homem de idas solitárias ao teatro, e nem deixaria em casa uma esposa mais só ainda! Eu não acreditava que existissem ainda homens como aquele rapaz, até então. Não trazia ainda as cicatrizes da vida...
Era noite de Natal, e ele esperava acordado pela missa do galo. Todos dormiam, e eu o observava do corredor. Distraído em uma poltrona, ele absorvia Os três mosqueteiros com aqueles olhos lindos, tão sedentos de aventura e novidade. Levou um susto quando adentrei a sala. Não contava com meu sono leve, disse, preocupado em ter me acordado. Mas talvez não contasse mesmo com meu traje de dormir. Creio não ter apanhado bem o roupão na cintura. Quis conversar sobre a Corte, sobre romances, sobre a missa. Já não eram horas? Não, não eram. Eu o deixava falar, sua voz de querubim entorpecia meus ouvidos de mulher e me oferecia também a sua atenção. Ah, e como eu queria os seus olhos sobre o meu corpo! Despertava em mim uma mulher tão linda, e as brasas desse desejo de falar também. Há quanto tempo não era ouvida? Se há muito haviam se perdido mesmo meus anseios de menina, que dirá dos sonhos de mulher? Mas, assim perto dele, eu podia me lembrar de como era a vida antes do cinza de todos os dias, dos quadros vulgares e do papel de parede de mau gosto daquela casa.
Confesso que tenho na memória apenas a sensação do fluxo louco das palavras naquela noite, embora tenha guardado ardentemente a lembrança da tensão dos silêncios, das coisas não ditas pelos lábios... Esses lábios que não beijaram! Pude sentir o brilho da minha pele branca nos seus olhos castanhos, mas como poderia eu roubar a mesma pureza ladra de meu fôlego?!
Quanto de mim morreu quando o vizinho chamou meu senhor Nogueira para a missa e quanto de mim voltou à vida com o pulsar do desejo dele? São mistérios que minh’alma não precisa decifrar. Incompreensíveis à moral de mamãe, à infidelidade de meu marido, ao sarcasmo que temos quando somos o Outro.
Nunca mais pude ser a mesma. Algum tempo depois, tornei-me viúva. Passado o luto, casei-me de novo. Pergunta-se o leitor se era o senhor Nogueira o meu marido? Não. Mas foram os seus olhos que me ensinaram a reconhecer – não digo o amor, talvez – mas o desejo de um homem por uma mulher. Foi naquela noite tão estranha, em que os sinos da missa do galo dobraram só por mim...

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