Aqui, a simplória tela de um documento virtual em WordPad. Eu escrevo e alimento generosamente minha tendinite, mas isso não passa de trabalho manual.
Dedos treinando agilidade.
Adestramendo de dedos.
Indicador no enter, no ene, jota, gê, shift e acentos. Talvez no vê.
Que porra de sentido faz tudo isso, afinal?
Eu escrevo rápido pra caramba. Erro rápido e rápido deleto tudo, para então reescrever. Quantos toques gasto errando diariamente?
Muito mais do que o calculável, imagino.
É um engano, um engano!
Achar que estou despejanto meus pensamentos virtualmente aqui. Estou é gastando meu tempo pensando em nada.
N-a-d-a.
Penso no calor. Afrouxo os botões da sandália porque o calor fez com que meus tornozelos inchassem.
Penso no resto do meu corpo e sinto uma PROFUNDA preguiça.
Percebo que estou sentada em uma cadeira de escritório tosca, cujas rodinhas quebraram. Ela não desliza, se arrasta por aí.
Penso na densidade das músicas que ouço e, por alguns segundos, sinto inveja dos que atingem alguma felicidade com o pagode. Eu queria batucar e escancarar um sorriso dentuço também. Mas tenho dentes pequenos e olhos de panda.
Panda!
Olheiras constantes, surgidas duma mescla entre maquiagem nova, maquiagem velha e cansaço.
Já faz algum tempo que estou aqui, procrastinando. Ninguém percebeu ainda. O som de meus dedos no teclado deve passar a impressão de que estou profundamente intelectualizando aqui. Pois prefiro batuques e tornozelos a perpetuar a farsa do Papai Noel.
Acho que uma parte de mim está completamente ofendida por ter que escrever e divulgar o investimento que a empresa fez na decoração de Natal e na contratação do Papai Noel este ano.
Está um calor desgraçado, veja bem.
Eu poderia ser um cachorro vira-latas a rolar em algum montinho de areia na calçada de uma nova construção. Mas estou aqui, dizendo que a empresa terá ursos polares mecatrônicos ao custo de 500 mil bananóides e que o Papai Noel - um velhinho surfista e tatuado - vai ganhar dez mil bananóides pra usar uma roupa quente e vermelha, segurar crianças no colo e fingir que anota pedidos de presentes.
Algum tempo depois...
E então continuei a saga. Acompanhei o Papai e a Mamãe Noel na entrega de presentes a crianças de creches carentes. Carrinhos e bonequinhas novas para os humaninhos de quatro ou cinco anos. Chocalhos para os bebês.
- Você é amiga do Papai Noel?
- Eu sou.
- Então ele existe, né?
- Claro! Olha ele ali. Vai pegar seu presente!
- Aquele menino de camisa branca disse que ele não existe.
- Não, não! Deixa disso. Qual seu nome?
- Caique.
- Vai lá, Caique. Vou tirar uma foto sua com o Papai Noel.
Menino da camisa branca:
- Então ele existe, né?
- Olha ele ali! Por que você achou que ele não existia?
- Ele não costuma aparecer onde eu moro... Tira uma foto minha também?
E sou eu quem é presenteada, afinal.
Sorrisos, beijos e abraços gratuitos.
Um comentário:
De escorrer lágrima no cantinho do olho. sério.
Feliz Natal.
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