quinta-feira, novembro 12

(des)existir

Não sentia as sobrancelhas no rosto. Normalmente eram pesadas, como se empurrassem seu humor para baixo.
Mas não dessa vez. Na verdade, sua cabeça parecia ter adquirido a tendência de se reclinar para trás.
Tateou o rosto em busca das sobrancelhas, mas antes que a ponta de seus dedos pudessem tocar o rosto, seu olhar as deteve.
Parou as mãos em pleno ar. Estavam azuis. Azuis como o céu que amanhece após uma tempestade, de uma luz cósmica inebriante, alucinógena. Azul asa de fada, azul chapéu de gnomo.
Mãos sem anéis, sem relógio e pulseiras, mãos azuis como olhos cegos.
Uma pena de gaivota muito branca veio descendo do céu azul, surfando na brisa como um quadril de mulher a desfilar. Desceu e repousou - eram seus olhos que se fechavam, e os cílios que se tocavam gentis como beijo de namorado.
Deixou a cabeça se inclinar para trás. Seus cabelos seguiram o movimento e cresceram, enchendo de novos cachos o ar. Ela despiu sua camisola. Toda a sua coluna - seios e costelas - acompanharam a curvatura extasiada do pescoço.
O topo de sua cabeça tocou o travesseiro e seus braços abertos - azuis para abraçar o mundo - misturavam-se com os cachos de cabelos em espiral. Ergueu seu quadril, elevou-o aos céus!, até que seus únicos apoios nesso mundo eram o topo da cabeça e a ponta dos pés.
Até que nada mais de seu corpo tocava a matéria. Ainda de olhos fechados, abriu um sorriso e, sem respirar, transformou-se em nuvem. Éter. Vapor. Azul, muito azul. E brilhou.

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