Chovia. Mas não com intensidade. Apenas caíam gotinhas persistentes e irritantes, daquelas que embaçam a janela e o ânimo para sair de casa.
Claro, uma pessoa em suas quase duas décadas de vida não tem lá muito ânimo para ir a um casamento em pleno sábado chuvoso à noite.
Dizem que chuva no casamento dá sorte. Eu pensei nisso boa parte do tempo, na sorte e no amor.
Quando entramos lá, havia um burburinho forte na igreja - parentes inquietos - e um outro barulho forte, bem mais atrapalhado - o baterista batendo os pratos, um som que se sobrepunha mesmo aos pensamentos mais loucos de uma pessoa.
O casamento acabou e eu não entendi nada. Mas acabou antes do horário marcado no convite?! Não. Era outro casamento. Logo a fila de padrinhos saiu, os convidados estranhos saíram também e eu vi ficar, aqui e ali nos bancos, apenas rostos conhecidos espalhados nos bancos. Os parentes do próximo casamento, quase como que espiões disputando um lugar.
O esquema era esse, casamentos em massa. Convidados assistiam aos casórios alheios esperando por seus conhecidos. Os noivos que se atrasassem pagariam multa, inclusive.
Tudo como deveria ser. O vestido bonito, os cabelos arrumados e a criança chorando tão alto que não dava para ouvir o discurso do padre. Peça de teatro, cinema, palestra - a criança chorona está lá. Não que eu realmente conseguisse manter minha mente nas palavras dele. Observava inebriada os milhões de desenhos na igreja. Em especial, o do centro do altar. Um cordeirinho sacrificado, pela glória do Senhor.
Incrível é achar isso natural e hediondos os sacrifícios indígenas!
Chamou-me a atenção, acima de tudo, a música que antecedeu a marcha da noiva. Uma odisséia no espaço. Juro que, apesar de estar tentando me comportar num vestido bonito, não consegui deixar de pensar na entrada de um ET de branco na igreja.
Lá vai a mulher, adentrando a odisséia do matrimônio.
Vinte e cinco anos e a garota de branco já pagava pelo casamento, pela festa e pela comida aos parentes, pela casa montada em prol do que acredita ser a união com o homem que ama. O homem também. Recebia tapinhas nos ombros - Aê campeão, tá domado, hein!
E eu, quase duas décadas de vida - um pouco só mais nova que ela! - ainda reluto em ir a um casamento. Procuro um emprego e continuo respondendo aos parentes:
- Não, o namorado ainda não apareceu, não.
A música estava é certíssima.
Talvez a vida seja mesmo uma tragicômica odisséia no espaço.
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