quinta-feira, outubro 2

Cena de calçada

Avistei, de longe, um cão. Era grande como um lobo, porém magro. Tinha à sua frente um pote azul, e eu o via lambê-lo como se tomasse água. Perto dele havia uma velha senhora, igualmente magra, que estava também a olhar o cão.

Ao aproximar-me, vi que o pote estava cheio de arroz branco, mas o pobre não conseguia comê-lo. Tinha perdido o pêlo em várias partes de seu corpo, havia feridas cicatrizadas e muitas ainda abertas nas patas, na barriga, no focinho. Fossem talvez marcas de brigas com algum outro cão. Mas, enquanto eu passava, ele olhou para mim:

Medo
Memória
Dor
Tristeza

E a mulher, antes parada, agora gesticulava e achava falar com um rapaz que também passava - mas ele não ouvia. Sequer olhou para qualquer um de nós.

Ela se explicava: o cão não era seu, não sabia de quem era, não era de ninguém; o arroz, o pote, sim.
E agora, o que fazer? Não é meu, não é meu...

O cão ouvia.

Mas o cão não era de ninguém.

De ninguém a sua tristeza, de ninguém a minha.

E nós dois sabíamos.

Um comentário:

Anônimo disse...

Perturbador

muito perturbador

de deixar um gosto ruim na boca e o peito tão apertado que não dá vontade de levantar a cabeça

não consigo dizer mais nada...