Avistei, de longe, um cão. Era grande como um lobo, porém magro. Tinha à sua frente um pote azul, e eu o via lambê-lo como se tomasse água. Perto dele havia uma velha senhora, igualmente magra, que estava também a olhar o cão.
Ao aproximar-me, vi que o pote estava cheio de arroz branco, mas o pobre não conseguia comê-lo. Tinha perdido o pêlo em várias partes de seu corpo, havia feridas cicatrizadas e muitas ainda abertas nas patas, na barriga, no focinho. Fossem talvez marcas de brigas com algum outro cão. Mas, enquanto eu passava, ele olhou para mim:
Medo
Memória
Dor
Tristeza
E a mulher, antes parada, agora gesticulava e achava falar com um rapaz que também passava - mas ele não ouvia. Sequer olhou para qualquer um de nós.
Ela se explicava: o cão não era seu, não sabia de quem era, não era de ninguém; o arroz, o pote, sim.
E agora, o que fazer? Não é meu, não é meu...
O cão ouvia.
Mas o cão não era de ninguém.
De ninguém a sua tristeza, de ninguém a minha.
E nós dois sabíamos.
Um comentário:
Perturbador
muito perturbador
de deixar um gosto ruim na boca e o peito tão apertado que não dá vontade de levantar a cabeça
não consigo dizer mais nada...
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