segunda-feira, outubro 13

Das minhas conversações no silêncio

Nunca estamos livres do olhar. E eu digo nunca, mesmo. Imagino que a diferença das pessoas cegas para as outras seja a sua aguçada percepção do mundo.
Hoje estava eu no ônibus. Ouvia uma canção que, com certeza, você gostaria de ouvir comigo e lia um romance que valeria horas de filosofações.
E, justamente, essa estranha combinação - os acordes, as palavras e o pensamento em você - provocaram em mim qualquer tipo de perturbação, dessas que os cegos atentos poderiam sacar e, ao fazê-lo, sorririam.
Não creio que as pessoas pensem nelas mesmas o suficiente para perceber que, logo após o almoço, quando têm de voltar ao trabalho, ficam com essa irritação qualquer no rosto e simplesmente deixam de ser tão bonitas quanto poderiam. Não. Há esse egoísmo burro, por assim dizer. Preocupam-se com o dinheiro na conta, os bens adquiridos ou ainda a semana de férias ao final do ano - como se apenas nesse período fosse possível sorrir.
O ônibus parou então na estação. Desciam todos com aquela expressão passiva que se tem quando os pés decoram as calçadas. É fato que os meus as decoraram também, mas não sem certa solidão. Acho mesmo que sentem um terrível tédio nessa tarefa. Apesar disso, gosto da estação. Se alguém quisesse por ventura e contravenção mudar seu itinerário de todos os dias, poderia. Conheço as bilheterias e sei a diferença dos trens de carga para os trens de passageiros só pelo som. Pensei já, algumas vezes, em me atirar dentro d'algum vagão de carga vazio, mas provavelmente pararia em Jundiaí ou coisa que o valha, sem nada para fazer que não fosse tirar um bom cochilo em cima dos trilhos e observar a paisagem que, aos olhos dum passageiro de trem, insiste em correr para trás. E conheço os ônibus. Alguns até me cumprimentam quando passo, e ouso ter dentre eles um querido, o meu São Geraldo verde e laranja.
Mas hoje senti uma vertigem esquisita. Fazia um calor pesado, a cidade era como uma estufa - bem entendi o que você quis dizer! - e, ainda assim, somente um tolo diria mal de um dia desses. O céu era bem azul e enfeitou-se de nuvens brancas e fofas. Era como se, em seu calor pesado, o dia fosse uma moça lindíssima, dessas que por sua própria natureza causam sofrimento, sem querer - e ainda assim nos fazem querer a sua presença.
Eu me senti como se fosse morrer.
Voltou-me à memória um diálogo entre duas personagens. Uma, a psicóloga, dizia à outra que, inconscientemente, era uma suicida. Sim, pois a moça em questão tinha uma tal disposição para se colocar em situações extremas que chegava a ser um desamor para com sua vida.
Eu me vi assim. Meio trapezista, sem corda de segurança. Pra quê?!
Descobri que tenho medo de morrer. De uma forma muito distinta, talvez. Não me considero apegada às coisas que tenho. É fato que deixaria com saudades as pessoas que amo, mas não posso crer que eu morreria deixando-as na dúvida. Não, teriam certeza de que eu as amava!
No entanto, cortaria o coração ver uma pessoa tão jovem morrer, não é?
Pois. Não quero morrer sentindo saudades das coisas que não fiz, que não vi. Não posso morrer sem ter sentido no peito a angústia louca de dizer palavras de amor, sem a ternura de ouvi-las também, sem o êxtase louco de dormir nos braços certos! E dormir aquele sono de paz que se tem depois do sexo, aquele cansaço sorridente.
Não! Não me importaria tanto não ter conhecido Paris nesta vida, mas me dá uma ponta de tristeza nunca ter tocado violão para o meu avô.
Não sou solitária, mas tenho solidão. Tenho solidão, mas nunca, nunca, deixei de acreditar em cura.
Em algum momento qualquer aí, achei que as estradas que os homens medem e as fronteiras que chamam corpo não existem, não. Achei que almas existiam, que eram livres disso tudo e conversavam entre si, quando conseguiam se encontrar.
E acreditei. Até hoje.

5 comentários:

Anônimo disse...

e acreditei. até hoje. por isso (...) e "por fim" (...)

._.
come on, bring it out :]

Anônimo disse...

Here's a thought for every man
Who tries to understand what is in his hands
He walks along the open road of Love & Life
surviving if he can

...

procura o resto disso aqui ;)

Ana Lins disse...

chained to all the places that he never wished to stay
bound with all the weight of all the words he tried to say
as he faced the sun he cast no shadow
as they took his soul they stole his pride

as he faced the sun he cast no shadow...

Unknown disse...

vc brisa velho!

haha gostei...

Larissa Costa disse...

As vezes me pergunto se você é real....Como você esreve bem menina do balaio...