sexta-feira, abril 16
Trinta e quatro minutos
Às vezes eu faço clipes com a minha vida. Principalmente nos momentos de tédio. É quando venho aqui escrever, principalmente porque eu não posso fazer como naquele filme estranho, o "O Homem Bicentenário". O robô pode gravar tudo o que vê, e ainda por cima possui um projetor em sua cabeça, que pode expandir as suas "memórias" para o ar, aos olhos de todos. Seria legal se eu pudesse projetar minhas memórias imaginadas para a superfície de um lago - sem fazer uma faculdade de cinema, quero dizer. O problema do robô é que as memórias não são necessariamente dele. Como a minha vida, que não parece necessariamente minha. Não que eu queira viver duzentos anos. O querer não está relacionado à quantidade de anos, mas simplesmente ao verbo viver. O que é viver? Eu não escrevo essa frase como um professor universitário barbudo a gesticular num auditório, entende, com aquela paixão que remete aos vinte anos, a um amor que ele tinha e que lia Nietzsche com ele e aí puf!, se foi. Eu escrevo essa frase remetendo a mim mesma, sem barba, com vinte anos, e sem uma paixão que fique nhénhénhé comigo e os autores da filosofia mundial. Escrevo até mesmo sem filosofia alguma, apenas como uma maneira de continuar batendo meus dedos no incrível teclado de computador que existe num laboratório de comunicação num prédio em São Caetano do Sul. Aliás, até prefiro os autores da filosofia mundial ao nhénhénhé. Escrever é uma forma de não ouvir o falatório, a verborreia que acomete a população jovem nas sextas-feiras à noite. Escrever é transar com o silêncio e sussurar juras de amor ao pé de seu ouvido. E, no entanto, escrever é esperar que alguém leia. Mas, ao menos este texto desta autora, por favor, leia em silêncio. Faça o leitor mesmo seu próprio clipe mental. Nem que seja um plágio, como o Verve fez com bittersweet symphony. Aliás, essa é uma excelente canção. Imagine a si mesmo enrolado em uma jaqueta, a andar pelas ruas em linha reta, obstinadamente, a atropelar carros e conversas comerciais que rolam soltas pelas linhas de celular. Aonde você quer chegar, com seus passos impetuosos e cegos e surdos? Aonde, você e a canção? É. E então estava eu, numa rede, lendo "A insustentável leveza do ser". E o Kundera, querendo insistentemente separar o pesado do leve, tal como um fanático maniqueísta. Certo, errado, claro, escuro. Minha resposta é penumbra, meu caro! Ele não entende como pode uma mulher desejar tão ardentemente a independência e o peso do corpo de um homem ao mesmo tempo. Eu penso nos cavalos, naquelas vendas que as pessoas põem nos cavalos para que eles enxerguem só em linha reta e não se assustem com o resto do mundo civilizado. O Kundera é assim. Pois se ele vislumbrasse que o peso do corpo de um homem é um portal para um milésimo de segundo de pura liberdade, ah... É. A vida nos oferece os pares por um propósito. Preto mais branco é igual a uma infinidade de tons de cinza e mulatos, e querem enxergar apenas a matriz, a pureza... Pra mim, tudo são meios. Ferramentas, instrumentos que estão aí, existindo, tal como uma paleta de cores existe para o seu pintor e a tela virgem. A questão é o vácuo que... hm. Imagine um astronauta no espaço. A ausência de peso e a ausência de leveza, apenas o desexistir. Eu me sinto assim, acordes dando cambalhotas, sem saber ao certo o que continuar pintando. Não é tristeza ou melancolia, nenhum tom de azul. É luz, uma imensa paz dando cambalhotas em minha cabeça, a fitar o mundo com saudade do caos.
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Um comentário:
Nossa!!! Você simplesmente humilhou!!!
Sério, ficou muito bom!!!
"Escrever é transar com o silêncio e sussurar juras de amor ao pé de seu ouvido."
Foi uma das coisa mais significantes que eu já li!!!
Parabéns!!!
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