Havia semanas que não conseguia comer direito. Talvez fosse sua própria alma a se contorcer, inteira, na sua barriga. Era como se o resto do corpo fosse desprovido de alma, e toda a sua atenção precisasse necessariamente se concentrar na barriga. Aquela sensação recorrente de montanha-russa, o arrepio, já não parecia tão delicioso agora que não cessava mais.
Tampouco conseguia dormir. A cama, antes tão aconchegante e... tão incrível, ninho e porto, agora era toda pregos. Fitava sem parar o teto, rolava e sentia o lençol áspero ferir sua pele.
E acordava. O dia era um oásis. Dedicava-se fervorosamente a qualquer coisa que se lhe jogasse à frente, na esperança de que talvez conseguisse enganar a si mesma e voltasse a ter poder sobre sua própria mente. Certa vez chegou ao recorde de manter uma conversa com alguém no curso por 24 minutos direto, sem lembrar da alma no estômago.
E se pegava rabiscando papéis, sem conseguir escrever. E deixava por perto o celular. E olhava o céu. E passava sempre perto das janelas, para o caso de alguém chamar.
Mas ela não ouvia chamarem. Como que fora do ar, olhava mas não via e escutava sem ouvir. E foi pega de surpresa, enquanto flutuava nas reviravoltas borboleteantes de seu estômago, suspirando. Ao que lhe sentenciaram:
- Tá apaixonada, guria?
Sete segundos direto sem piscar. Sua alma esticara-se de volta ao corpo para emitir uma forte luz e então voltar para a caverna abdominal, medrosa e relutante:
- Eu, hein?!
E foi para isso que o Da Vinci inventou o sorriso da Mona Lisa: para ornar o rosto dos observadores nessa vida, de quem entende o outro antes do próprio entendimento...
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