Descia a rua na sua melhor performance. Falava, ria e inventava assuntos o tempo inteiro. Travava uma luta secreta e interna contra si mesma; seu imenso desinteresse assexuado por tudo. E então distraía-se com tampinhas de garrafas no chão e praticava, tal qual um esporte, flertar com o máximo possível de seres humanos disponíveis (ou não) no ambiente. Garotos, garotas, não podia evitar.
Queria saber o que aconteceria. Se era capaz de arrepiar uma nuca e arrancar um sorriso, mas mantinha um certo pudor com as lágrimas. Preferia ela mesma espetar uma adaga em seu peito a fazer alguém chorar.
Isso tudo foi antes. Naquela noite garoava e o próprio luar, sempre tão romântico, parecia cruel. Ela descia a rua na sua melhor performance e, então, o viu. Um copo de cerveja na mão, parado no mesmo bar, em meio à multidão. Ele era uma isca suculenta que escondia um anzol. Ela mordia e ele puxava, devagar. E devagar seu lábio sangrava. E ela relutantemente obedecia, parte pelo medo de rasgar sua boca, parte ficando mesmo excitada com a dor sacana que ele lhe infligia.
Parou sua marcha rua abaixo e falhou, incompetente, em esconder o gosto que sentia em vê-lo.
- Oi!
- Oi, menina.
Ela precisou até fechar os olhos por um segundo e respirar com um pouco mais de vontade. Ao contrário, ele escolhia muito bem as palavras e a melodia da voz para as dizer. Falava como se fosse um gostosão, certo de si e temperado com uma calhordice que, ela sabia, não era dele. Mas fazia de propósito; provocava tanto quanto irritava e nunca dizia o nome dela.
E, enquanto tinha fechados os olhos, refletiu; não queria usar escudo. Aquela briga - ah, sim, havia se transformado em briga - deveria ser travada por palavra e pele.
Ele a encarava e falava firme, doce.
- Tudo bem?
Ela apertava os olhos e o encarava de volta, balançando a cabeça bem suavamente, como se nem esse movimento ele merecesse.
- Aham. E aí?
- Tudo ótimo.
Ele tinha que estar melhor.
- Tá perdida, menina?
- Mais procurando do que perdendo ou encontrando.
As delícias de dizer frases pretensiosamente desencantadas!
- E o que você tá procurando hoje?
- Vou pra algum lugar com a Cá.
E ele olhou para a escultural criatura que atendia, dentre muitos outros nomes, por Cá. Linda, lindíssima. Uma catástrofe em potencial. Mas não eram os olhos dela que estavam ali, faiscando. Ela somente esperava o duelo terminar. Não aprovava nada daquilo e tinha pressa em se divertir.
- Eu não vou. Trabalhei a semana inteira.
Ela viu nele os olhos vermelhos e as olheiras. A maquiagem, friamente calculada, não o deixava ver as olheiras dela. Mas ele veria, se quisesse. Se olhasse pra ela e a conseguisse enxergar, veria a semana inteira. Veria sua vida inteira e, mais loucamente do que qualquer outra coisa, veria que ela estava ali. Sem nenhuma razão aparente, ela fazia um esforço meio ingênuo pra encontrar o maldito tesão que faltava, apesar do evidente cansaço do corpo.
Ela gostava do colapso. E sabia reconhecer os momentos decisivos. Pular? Bater? Correr? Ir? Ficar?
Pulou.
- Eu não acredito em você.
A surpresa fê-lo sair da pose momentaneamente.
- Olha pra mim, guria.
- Olha você pra mim.
- Eu vejo.
- Não vê.
Tudo muito rápido, infantil e petulante. Ele se irritou.
- O que você quer?
- Você. Você está se poupando de mim.
- Eu sou só isso.
- Você não me deixa entrar.
- O que você quer?
- Eu quero o bicho na sua cabeça.
Ele riu.
- Eu quero que você olhe pra mim e veja que eu sou linda. Tem uns dez caras nesse bar que me acharam gostosa, mas você não quer me agarrar. Eu quero que você me leia. Abre os olhos, cacete, eu sou a personagem de todos os seus textos.
- Você fantasia, menina.
Ele parecia triste, ela parecia normal. E a normalidade do mundo a corroía por dentro. Não entendia por que o normal lhe inspirava tanto desgosto. Era tão humana quanto qualquer um ali, mas acreditava que a vontade e a carne eram mais do que suficiente pra se fazer qualquer roteiro de filme. E a normalidade negava a arte, o tempo todo, a todo mundo. Era normal ser normal.
- Eu quero o extraordinário. Poderia ser você. Deveria ser você, e você não quer.
- Eu preciso ir embora.
Ela parecia triste.
- Vai.
- Eu deixo um beijo pra você.
E, com o beijo que ele deixou, ela escreveu a história mais covarde e kamikaze do mundo. Uma história para tão-somente os pixels sentirem. E riu, com certo pesar, ao terminar a narração. Parecia mesmo uma poetisa desperdiçada a lamentar a desatenção daquele que roubou seu coração. E escrevia com um legítimo cansaço. Dançara como uma meretriz a noite inteira e experimentara calhordices para todos os gostos. Praticava - e ficava cada vez melhor! - seu esporte de flertar. Arrumava brigas tanto quanto colecionava sorrisos e, pateticamente, antes de dormir, cantarolava:
deixe em paz meu coração
que ele é um pote até de mágoa...
Antes ela queria que ele não deixasse em paz coração merda nenhuma. Queria o caos, o frio na barriga.
Mas ele queria que ela desistisse.
E, dançando, ela desistiu.
2 comentários:
Extremamente simples, e da simplicidade é que nascem os mais belos atos.
in pills we trust!
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