Dona Gertrudes chegou aos seus oitenta e poucos anos de idade e foi procurada para que contasse a história de sua vida.
Ela tinha um belíssimo repertório de memórias das artimanhas que a personalidade forte de seu sogro aprontava, de conquistas do caráter incorruptível de seu marido, de toda e qualquer aventura notável que ouviu ao longo de sua vida.
E lá estava ela. Forte, independente e sozinha. Todos os personagens de suas memórias eram já fantasmas de tempos distantes.
Sua própria história, contudo, é contada nas entrelinhas.
Ela foi aeromoça, enfrentou o preconceito da época e foi feliz. Até casar, ela diz. Automaticamente as noivas pediam demissão.
Ela aprendeu a falar alemão, conheceu a Europa e a terra de onde seus pais saíram, sem jamais saber escrever o idioma e, de fato, sentir que havia raízes. Quis estudar, mas só até as filhas nascerem, ela diz. Cuidar da família era sua primeira obrigação.
Ela quis estudar contabilidade, começar uma carreira e sentir sua inteligência também contribuiria para o crescimento da família. Até o marido ser promovido, ela diz. Depois não havia necessidade de ir a campo e lutar.
E Dona Gertrudes tem essa época em sua mente em alta conta, como de uma doçura já perdida por essa modernidade. Tempos em que as coisas eram difíceis, mas a alegria vinha aos quarenta quando se conseguisse comprar uma chácara e os filhos se casassem.
Mais meia vida depois, esse doce vai doer esquisito, assim no peito, quando se mostrar tão limitado, tão sabotado, tão deixado pra trás...
E a consciência tranquila de Dona Gertrudes vai acalmar o peito chateado e sorrir serenamente enquanto me sussurra baixinho:
- Vai, garota. E não sossega enquanto não conseguir.
Um comentário:
vai garôôta!
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