sexta-feira, dezembro 5

Em frases curtas mas não desconexas

Ele era assim, tudo relativo. Uma formalidade enorme, sabe? Uma simpatia educada para com os outros. Ele não modificava o tom de voz e, por isso, qualquer um que ousasse gritar já era considerado louco. No mínimo, portador de uma deseducação imperdoável.

Ele achava mesmo que, por não gritar, não machucava. Que seus olhares frios e gestos brutos não eram deselegantes. Deselegantes pra usar o vocabulário dele. No meu, aquilo tudo era uma merda.

Houve um dia em que ela não aguentou mais e gritou com ele.
- Foda-se você.
Falou aquecendo a garganta, enchendo a boca, descarregando o coração.
Ele disfarçou sua perplexidade dizendo que ela havia dado a prova definitiva do que ele sempre vinha dizendo, que era deseducada.

Esses parágrafos na verdade levaram anos para se desenrolarem. Duraram duas infâncias e uma adolescência. Duraram um casamento e desembocaram num divórcio.

Ninguém tem obrigação de passar por tudo. Eu não quero entender o que é uma guerra, o que é um infarto. A pele não entende. As almas sim.

Não preciso viver tua vida para te entender. Não preciso provar que te entendo.

Eu sou dessa opinião: não gosto de brigas. Gosto de debates, porém. Do tipo masturbação mental. Que levem a pensar sobre o não antes pensado, a usar palavras raras, a rir do inusitado, à surpresa.

Quando vejo alguém fazendo uma panaquice, deixo estar. O debate com um panaca é tenso. Ele não quererá ver o outro lado. O riso será supérfluo e a própria tentativa de debate será encarada como pretensão. Por isso deixo estar. Deixo as águas se acalmarem. Relevo.

Foi então que um dia disseram que o tímido é, na verdade, um orgulhoso. O tímido acha que não vale a pena dividir a sua preciosa opinião com os outros.
Silêncios propositais, frases inacabadas e textos cerebrais são covardias.
Elegâncias no vocabulário dele, covardias no meu.

Espero que o leitor manje de ironias.
Que tempere a própria vida com as pequenas lições que pipocam ao seu redor. Ininterruptas como a televisão. Porém reais.
Mas é... Empatia não é um troço que se ensina de propósito, como logaritmos.
Acontece. Como a vida.

Particularmente, nunca gostei de matemática.
Mas dizer do que o outro é ou não é, dizer do que o outro sente, não sente ou deveria sentir!
Batatas!, é demais. É condenar ao desconhecimento a própria vida em troca da ilusão que é observar a vida dos outros.

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