Da sarjeta vazia eu recolhia os destroços do dia que ficara pra trás; marcas de sapatos apressados, papéis de balas, bitucas de cigarros, lembranças partidas. Não sabia ao certo se era o silêncio de quem dormia que tornava a manhã tão escura ou o sol que, por se demorar a acordar, aquietava as ruas todas.
Da janela do ônibus, por entre as pegadas de insetos e vestígios de sujeira do ar, eu via as cores que anunciavam o dia. De um lado, as nuvens, bem como borradas por pincel, douravam e alaranjavam o céu muito azul que se mostrava, feito moça bonita que desperta sorrindo. E o azul ia bem contornando o arco do teto infinito sobre minha cabeça, e ficando lilás como flor que vai ao chão do outono.
E eu olhava meus pés, as unhas vermelhas e o sapatinho de plástico, e procurava minha poesia. E ela era como o céu do interior que vem saudar a cidade, três e cadinhos de minutos de natureza pintando os prédios, com saudade verdadeira de beijar a terra escondida sob o asfalto. Minha poesia nasceu por um desengano do acaso numa cama muito branca de hospital e se criou na selva de pedra, rebelde como um filho sofrido da ausência dos pais. Mãezinha e paizinho de alma simples e olhos profundos, aguardando serenos o retorno duma prole errante e muito bem desentendida das coisas que nasceram antes dos prédios.
No fim, percebi, num laranja suspiro anuviado no céu, que minha poesia não sabia falar na cidade. E com a cabeça recostada no vidro sujo do ônibus, fechei os olhos para escutar tão somente o coração, que ele sim batia ainda no idioma esquecido dos meus pais...
E acertei o compasso desse meu tantã ansioso pra levada das marés, que todo fim é sempre o começo de alguma coisa outra ainda por se descobrir.
2 comentários:
Você sumiu, Anna! Dá um sinal de vida, =)
Sensacional!!!
Essa frase me fez abrir o sorriso mais gostoso da minha semana até aqui: "...douravam e alaranjavam o céu muito azul que se mostrava, feito moça bonita que desperta sorrindo."
Take care!!!
Besos!!!
Postar um comentário