Mas não. O celular diz 6:02. Se sair em 40 minutos, chego às 8 no escritório. Levanto-me apressada. No banheiro, constato tristemente que meu cabelo está tenebroso. Prendê-lo num rabo de cabelo não adiantaria. Entro burocraticamente no banho e alterno os pensamentos entre coordenar o xampu e o sabonete e adiantar que roupa vou vestir. Já de volta ao quarto, uso o celular - ele de novo! - como lanterna. Minha irmã tem um dia de folga e dorme pesadamente, então decido não acordar a pirralha.
Já vestida, corro para secar o cabelo. Topo meu cachorro na cama de minha mãe e tento brincar com ele, mas a bola de pelos geme preguiçosamente porque o tirei de sua posição quentinha. O barulho daquela arma de ar quente sobre minha cabeça apenas meia hora após ter despertado me deixa de mau humor. Vou para a cozinha e vejo que só há carboidratos para o café da manhã - as revistas femininas pioram meu humor. Com ajuda de minha mãe, preparo a marmita - que contém o
Chego às 6h52 no ponto de ônibus. Provavelmente o perdi por trinta segundos. Ligo o celular e finjo não ter cérebro para não me irritar mais. Às 7h12 ele chega, o camburãozinho azul. Subo conformada pelas escadas do inferno e dou bom dia ao motorista. Xingo em pensamento a CMT por continuar escalando micro-ônibus para os horários de pico. Há espaço, mas não dá para passar pela catraca.
Fico ali ouvindo Led Zeppelin, ZZ Top, Garbage, Rita Lee, Kiss e qualquer outra coisa que queiram transmitir nas ondas de rádio. Percebo a demora. Xingo mentalmente a província de São Caetano do Sul e todos os moradores do ABC que querem passar ao mesmo tempo pela única avenida da cidade para chegar a São Paulo: não dá para contar quantos carros passam transportando apenas um
Mas há uma força invisível a controlar a gente toda; a figura icônica do patrão sempre superior e do pãozinho sempre conseguido a duras penas. a vida sempre sofrida, a responsabilidade sempre nos políticos e a política sempre corrompida.
E eu, com meus inúmeros patrõezinhos imaginários particulares, durmo pesadamente no segundo ônibus que tomo até chegar no trabalho. Não sei o que fazer em relação a essa merda toda. Posso doar um moletom velho à campanha do agasalho, posso reciclar meu lixo e não comer carne, posso escrever esse texto para ninguém ler.
Mas, definitivamente, não vou mais profanar meu conceito tesudo de liberdade dizendo-me livre. Ah-ahn.
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