segunda-feira, julho 26

Sono, pães e ondas de rádio

Entre confortavelmente aquecida e perturbada por um sonho sem-noção, desperto. Lembro-me que desliguei todos os alarmes do celular na sexta-feira, a fim de ter alguma meia horinha sem lembretes de que o mundo está cobrando o tempo todo e qualquer um com meu número pode me achar o tempo todo. Lembro-me que não é domingo. A velocidade com que o final de semana passara me dá um leve enjoo. A única conclusão que posso tirar, então, é que deve ser umas 7 da manhã e eu perdi a hora.

Mas não. O celular diz 6:02. Se sair em 40 minutos, chego às 8 no escritório. Levanto-me apressada. No banheiro, constato tristemente que meu cabelo está tenebroso. Prendê-lo num rabo de cabelo não adiantaria. Entro burocraticamente no banho e alterno os pensamentos entre coordenar o xampu e o sabonete e adiantar que roupa vou vestir. Já de volta ao quarto, uso o celular - ele de novo! - como lanterna. Minha irmã tem um dia de folga e dorme pesadamente, então decido não acordar a pirralha.

Já vestida, corro para secar o cabelo. Topo meu cachorro na cama de minha mãe e tento brincar com ele, mas a bola de pelos geme preguiçosamente porque o tirei de sua posição quentinha. O barulho daquela arma de ar quente sobre minha cabeça apenas meia hora após ter despertado me deixa de mau humor. Vou para a cozinha e vejo que só há carboidratos para o café da manhã - as revistas femininas pioram meu humor. Com ajuda de minha mãe, preparo a marmita - que contém o carboi macarrão de domingo - dou-lhe um beijo e corro pelas escadas.

Chego às 6h52 no ponto de ônibus. Provavelmente o perdi por trinta segundos. Ligo o celular e finjo não ter cérebro para não me irritar mais. Às 7h12 ele chega, o camburãozinho azul. Subo conformada pelas escadas do inferno e dou bom dia ao motorista. Xingo em pensamento a CMT por continuar escalando micro-ônibus para os horários de pico. Há espaço, mas não dá para passar pela catraca.

Fico ali ouvindo Led Zeppelin, ZZ Top, Garbage, Rita Lee, Kiss e qualquer outra coisa que queiram transmitir nas ondas de rádio. Percebo a demora. Xingo mentalmente a província de São Caetano do Sul e todos os moradores do ABC que querem passar ao mesmo tempo pela única avenida da cidade para chegar a São Paulo: não dá para contar quantos carros passam transportando apenas um teco de carne ser humano. Perco as esperanças quando percebo que, mesmo a lata de sardinhas estando TRANSBORDANDO DE GENTE, o motorista continua parando nos pontos e as pessoas continuam forçando a barra. Não sei quem é pior: o peão que continua fazendo seu trabalho em vez de, por meio do bom senso, desencanar de colocar mais gente dentro da lataria, ou as pessoas que, por meio do bom senso, poderiam admitir que chegariam atrasadas ao trabalho meeesmo e respeitar o conforto mínimo da lei da física: dois corpos continuam não ocupando o mesmo lugar no espaço.

Mas há uma força invisível a controlar a gente toda; a figura icônica do patrão sempre superior e do pãozinho sempre conseguido a duras penas. a vida sempre sofrida, a responsabilidade sempre nos políticos e a política sempre corrompida.

E eu, com meus inúmeros patrõezinhos imaginários particulares, durmo pesadamente no segundo ônibus que tomo até chegar no trabalho. Não sei o que fazer em relação a essa merda toda. Posso doar um moletom velho à campanha do agasalho, posso reciclar meu lixo e não comer carne, posso escrever esse texto para ninguém ler.
Mas, definitivamente, não vou mais profanar meu conceito tesudo de liberdade dizendo-me livre. Ah-ahn.

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