quinta-feira, junho 5

De um catatau e flor de maracujá

“Olha os pés do vô, que beleza!”
E o vô mostrava às suas netas pequeninas, os seus catataus, as unhas bem aparadas e os dedos juntinhos, como que espremidos. E gostava da sua piada – os pés eram feios! Mas ter os sapatos e sandálias, e usá-los tanto, e sempre, a ponto de deformar os pés, era o orgulho desse senhor que, quando criança, trabalhava descalço no sítio.
Assim como gostava de jacas, roupas de linho, dos eucaliptos à beira da estrada, do suor honrado do trabalho, da casa que construiu e das árvores do bairro - muitas das quais ele mesmo tinha plantado e vira crescer! – gostava, sobretudo, de falar. Meu avô era contador de estórias.
Falava das suas aventuras místicas no sertão nordestino, das suas muitas viagens e dos feitos mágicos de heroínas: éramos nós, suas filhas, suas netas.
E o bairro inteiro conheceu os contos do João. Sabia da sua alegria, da sua força, de sua dedicação. O olhar era simples, de homem de nome comum, mas de caráter raro.
Cresci nesse mesmo bairro, com a certeza de encontrar meu avô no ponto de táxi, assobiando logo ali, na esquina. E ele acordava, almoçava, dormia cedo. Viajava o dia inteiro, mas deixava a certeza de que estava lá: nas férias de verão, nos almoços aos domingos, nos aniversários. E estava nos dias de chuva, quando eu precisava de carona, nas broncas, quando eu aprontava e nas palavras doces, a qualquer hora do dia.
Mas à sua ausência, é difícil de se acostumar. Hoje, sou eu quem dá corda no velho relógio, e sento-me na sua cadeira para almoçar. O relógio dá suas badaladas e fica no ar a sensação de que a qualquer momento entrará pela porta o meu avô.
Encontro-o ainda pelas esquinas! Não há canto nessa cidade em que não exista um teco de lembrança dele.
Meu avô era encantador de pessoas.
Era presente. Para mim, por mim e por muitos outros. Sabia que se cativa um coração nos pequenos gestos, nos sorrisos e abraços, nas palavras gentis. E isso havia nele, superando mesmo a sua moral rígida, seus valores tradicionais. E imagino quantas coisas mais meu avô dizia, e eu não pude compreender.
Lembro-me bem de quando descobri que a flor de maracujá era, realmente, bonita. Ele passou a me chamar assim quando deixei de ser catatau. Foi por isso que aprendi a amar uma fruta tão azeda.
E lembro-me do dia mais triste, e mais bonito do ano.
Aquele dia foi como a sua vida inteira: o céu de um azul intenso e limpo, o calor vigoroso e a alegria dos passarinhos em cada copa de árvore desta cidade. E a gente toda se perguntava por quê um homem tão bom tinha que ir, enquanto tantos outros continuariam aqui. Eu não sei. Mas imagino que talvez existisse naquele dia um deus entediado, que resolveu chamar de volta um anjo que lhe contasse boas histórias desse mundo.
Ele deve estar lá, o olhar menino e a paz no peito, descansando, à sombra dum pé de jaca.

2 comentários:

Unknown disse...

Hey Man, seus dizeres me emocionaram, parabéns!
beijocas

fox disse...

continuo boquiaberto... :D